The mindscape of Alan Moore

O excelente documentário inglês The mindscape of Alan Moore, de Dez Vylenz e Moritz Winkler, tem feito discreta participação em festivais e mostras especiais.

Tive a oportunidade de assistir ao filme em recente exibição realizada no Institute of Contemporary Arts, o famoso ICA de Londres, como parte do evento Comica, uma semana de celebração à nona arte, com debates, lançamentos de quadrinhos e exibições de películas relacionadas ao universo da banda desenhada.

A fita é um trabalho meticuloso, feito, ao longo de cinco anos, com fundos pessoais dos dois jovens diretores, cuja empolgação por seu objeto de estudo está nitidamente transposta para a tela. No entanto, apesar de se destacar como um dos raros registros cinematográficos de Alan Moore, traz poucas novidades. A maioria dos assuntos levantados pelo ermitão de Northamptom já foram amplamente discutidos em suas profusas e prolíficas entrevistas. Todavia, pela primeira vez, temos suas idéias ilustradas por belas imagens, psicodélicas e surreais. Só por isso o documentário já nasce clássico.

Retrato particular e extremamente franco do escritor, a película embebe-se na história de sua cidade natal, que parece fazer parte de sua personalidade, tamanha a simbiose entre ambos. Se Lovecraft – por sinal, já adaptado por Moore em HQ e prosa – tem em sua tumba a inscrição I am Providence, o abundantemente peludo escriba britânico já pode encomendar sua lápida com a mesma frase em relação a Northampton.

No início, o filme foi um pequeno projeto acadêmico de Vylenz. Era sua intenção fazer um curta metragem, entrevistando Moore e retratando suas idéias em segmentos breves. O projeto cresceu aos poucos, e tornou-se o longa exibido na semana COMICA.

ILUSTRES COLABORADORES

A exibição de lançamento na Europa foi precedida por um debate com ilustres colaboradores de Moore: Oscar Zarate (que fez com o escritor o romance gráfico A small killing), Dave Gibbons (Watchmen, entre outras), David Lloyd (V de vingança) e José Villarrubia (The mirror of love).

Curiosamente, o próprio Moore não esteve presente, talvez devido a seu atual estado de completa reclusão: ele se nega a fazer viagens internacionais (mesmo que quisesse, está com o passaporte vencido há dez anos) e diz que não gosta de viajar, chegando a citar os fundos de sua sala de estar como um lugar estranho, onde falam outra língua e usam selos e moedas diferentes. Não é de espantar que não queira se trasladar de Northampton para Londres, uma jornada considerável de até três horas. Talvez seja tempo demais para a paisagem mental de Moore ficar parada.

De qualquer forma, apesar da ausência do objeto central do documentário, os colaboradores fizeram uma bela explanação. Oscar Zarate chegou a dizer que Moore deve nadar em uma piscina de mel depois de ouvir tantos elogios nos últimos tempos. Entre 2003 e 2004, foram lançados dois livros sobre sua produção, Portrait of an extraordinary gentleman e The extraordinary works of Alan Moore, além de republicações de diversos de seus trabalhos e adaptações de suas HQs para o cinema. Zarate também informou a platéia que está trabalhando com Moore – lentamente, frisou – num livro chamado The battle, sem dar mais detalhes.

UM NARRADOR PARTICIPANTE

Após o debate, iniciou-se a projeção. Fomos apresentados, em uma fusão, à figura xamânica, barbada e curiosa do escritor, que, em extenso monólogo, narra suas idéias, convicções, interesses e conceitos. Tudo que Moore diz é ilustrado por imagens ligadas direta ou subliminarmente aos temas discutidos: guerra, sexo, quadrinhos, violência, sucesso, Inglaterra, Northampton, a possibilidade de existirem idéias tão complexas que se tornam auto-conscientes.

O intuito de Vylenz é mostrar, com suas imagens, o que pensa o roteirista. Logo, este é uma espécie de pré-coordenador do filme. A narrativa é comandada por suas palavras, havendo pouca interferência da equipe de direção nas idéias expostas.

Moore mistura, em sua prosa, análises da política mundial, considerações bem-humoradas sobre a boçal política externa norte-americana, opiniões sobre o mercado de quadrinhos, recapitulações de sua carreira, observações sobre física e o funcionamento da magia com piadas íntimas sobre sua vida como escritor, tudo de maneira absolutamente não-linear.

Se podemos encontrar alguma espécie de conclusão, ela se dá na segunda metade da projeção, quando o quadrinhista aborda a epifania que teve no início dos anos noventa, época em que optou por em vez de ter uma crise de meia-idade e chatear meus amigos, resolvi me declarar um mago. São abordados seus estudos da cabala, do tarô e seu interesse por magos e figuras místicas históricas como John Dee e Aleister Crowley. Neste momento as filmagens tentam criar uma atmosfera mística, adicionando tomadas em close-up da mão de Moore, coberta de anéis com formas e símbolos ocultos, manipulando cartas de tarô, imagens da árvore da vida e afins.

DOS QUADRINHOS PARA A TELA

Outros momentos marcantes são as dramatizações de V de vingança (já lançado no Brasil pela editora Globo e pela Via Lettera) e Watchmen

Jamais adaptadas para a tela, as seqüências são econômicas, mas extremamente bem realizadas. Na de V, o protagonista veste-se diante do espelho, enquanto escuta a rádio A voz, do governo fascista britânico, terminando por colocar a famosa máscara que o tornou célebre. Segue-se uma imagem do parlamento inglês em chamas, conforme ocorre na HQ.

Curiosamente o segmento de Watchmen escolhido para dramatização também traz outro mascarado, o que corrobora a idéia de que é difícil escolher um rosto para representar as criações de Alan Moore. O anti-herói Rorschach escreve em seu diário, sentado no telhado de um prédio, atento à poluição matinal e a cacofonia da cidade. A frase extraída do texto original é cortesia da voz lúgubre e rouca do próprio Moore: As ruas são sarjetas dilatadas e estão cheias de sangue. Quando os bueiros finalmente transbordarem, todos os ratos vão se afogar. A imundice de tanto sexo e chacinas vai espumar até a cintura e todos os políticos e rameiras vão olhar para cima, clamando ‘salve-nos’... e, do alto, eu sussurrarei ‘não’.

Outro momento pioneiro mostra John Constantine caminhando pelas ruas de Londres, em um prelúdio visual da adaptação vindoura que conta com Keanu Reeves no papel do ocultista inglês. Algo me diz que a adaptação do documentário, apesar de breve, terá sido muito mais feliz do que a hollywoodiana, a começar pela escolha de atores.

CONTRAPONTO PORNOGRÁFICO

O clima mágico e surrealista continua durante a narração que o autor faz de seu trabalho para a HQ Monstro do Pântano. A equipe de produção construiu uma espécie de organismo pulsante meio vegetal, meio terrestre, que surge em fusões enquanto Moore disserta sobre sua exploração do universo do horror ecológico.

Também é explorada a obra incompleta Lost girls, que ele está produzindo há mais de uma década com sua parceira (no trabalho e na cama) Melinda Gebbie. Trata-se de uma história em quadrinhos erótica ou pornográfica como prefere o roteirista. Surgiu como contraponto aos gibis excessivamente violentos dos anos noventa, tendência esta que ele próprio ajudou a criar com Watchmen e A piada mortal.

Temperadas por gritos e sussurros, as imagens eróticas de Gebbie são vistas por Moore como uma maneira interessante e pouco empregada de retratar a sexualidade, e conseqüentemente de se fazer histórias em quadrinhos, meio tradicionalmente considerado primário e infantil.

Para o escritor, a nova arte é a mídia mais adequada para a expressão de suas idéias. Ele afirma que, desde a metade da década de noventa, encara a narrativa das imagens somadas a textos como algo único e auto-suficiente. Desta forma, busca explorar as possibilidade dos quadrinhos – a releitura, a volta a quadros anteriores, a atenção aos detalhes, a justaposição de textos e imagens, as onomatopéias, a variação das seqüências, etc. – como parte integrante da leitura. Assim sendo, afirma ele, suas obras realizadas desde 1985 são infilmáveis. Suas palavras têm se provado verdadeiras, dada a baixa qualidade das versões de suas HQs para o cinema.

TRILOGIA XAMÂNICA

O documentário encerra-se com uma seqüência de pirotecnia apocalíptica, que ilustra de maneira literal sua última fala sobre a condição da cultura humana no momento em que vivemos: vaporizada.

Também é notável a trilha sonora original, criada por Drew Richards e RZA, membro do grupo Wu Tang Clan, que trabalhou em Ghostdog, de Jim Jarmusch, e mais recentemente na trilha de Kill Bill, de Quentin Tarantino.

Por fim, nos créditos, temos a informação de que The mindscape of Alan Moore é apenas a primeira parte da Trilogia xamânica. O segundo filme será uma dramatização ficcional sobre xamãs indígenas, curandeiros sul-americanos e africanos, e explorará como esta visão do mundo não cartesiana e não empírica está morrendo. O terceiro abordará as artes marciais, assunto muito caro ao diretor, que pratica Kung Fu e é coreógrafo de lutas em produções cinematográficas.

Num lance pessoal de envolvimento, após muita insistência em conversas que se seguiram à exibição, eu convenci Dez Vylenz a inscrever The mindscape of Alan Moore na 28ª mostra internacional de cinema de São Paulo, que acontecerá no final de outubro. Se aceito, o documentário será exibido na mostra competitiva. Portanto, vamos torcer e aguardar.

 

Assista: http://youtu.be/KPzLgQv6EjY

Espero que gostem.