Credo de um cientista de hoje (por Julian Huxley)

Creio que a vida pode ser digna de ser vivida. Acredito nisto, a despeito da dor, da miséria, da crueldade, da infelicidade e da morte. Não creio que seja necessariamente digna de ser vivida somente para que a maior parte das pessoas possa sê-la.

Também creio que o homem, como indivíduo, como grupo, e coletivamente como humanidade, pode realizar um propósito satisfatório na existência. Creio isto a despeito do mau êxito, da ausência de finalidade, da frivolidade, do tédio, da preguiça e do fracasso. Ainda, não creio que haja inevitavelmente um fim inerente ao universo ou à nossa existência, ou que a humanidade tenda a alcançar um propósito satisfatório, mas somente que tal propósito possa ser encontrado.

Creio que existe uma escala ou hierarquia de valores, que vai desde o simples conforto físico, até as mais altas satisfações do amor, do gozo estético, do intelecto, da realização criadora, da virtude. Não creio que estes sejam absolutos – ou transcendentais no sentido de serem concedidos por algum poder externo ou divindade – constituem o rótulo da natureza humana que interatua com o mundo exterior. Nem suponho tão pouco que possamos graduar todas as experiências valiosas em uma ordem aceita, assim como não posso dizer se uma abelha é um organismo mais elevado do que uma lula ou um arenque. Mas assim como se pode afirmar, sem hesitação, que há graus gerais de organização biológica, e que uma abelha é um organismo mais elevado do que uma esponja, ou um ser humano mais do que uma rã, assim também posso afirmar, com o consenso geral dos seres humanos civilizados, que há um valor mais alto na Divina Comédia do que num hino popular, na atividade científica de Newton ou Darwin do que em resolver um problema de palavras cruzadas, na plenitude do amor do que na satisfação sexual, no desprendimento do que nas atividades puramente egoísticas – embora cada um e todos possam ter certa espécie de valor.

Não creio que haja um absoluto de verdade, beleza, moral ou virtude, seja emanado de um poder externo ou imposto por uma norma interna. Mas isto não me leva à conclusão curiosa, em moda em certos setores, de que a verdade, a beleza e a bondade não existem, ou que nelas não haja força nem valor.

Creio que há algumas perguntas que não vale a pena formular, porque jamais poderão ser respondidas. Nada a não ser desperdício, preocupação ou infelicidade resulta quando se trata de resolver problemas insolúveis. Porém, certas pessoas parecem determinadas a experimentar. Recordo a história do filósofo e do teólogo. Os dois estavam empenhados em uma discussão e o teólogo lançou mão do velho dito em que um filósofo se assemelha a um homem cego, num quarto escuro, procurando um gato preto que não estava ali. “Pode ser”, disse o filósofo, “mas um teólogo o teria achado”.

Mesmo em questões de ciência, devemos aprender a formular as perguntas devidamente. Parecia evidente perguntar como os animais herdam o resultado da experiência dos pais, e gastou-se um tempo enorme e muita energia na tentativa de obter uma resposta. Mas não adianta fazer a pergunta, pela simples razão de que não existe tal herança de caracteres adquiridos. Os químicos do Século XVIII, porque faziam a si próprios a pergunta: “Que substância se acha envolvida no processo da combustão?” viram-se envolvidos na confusão da teoria do flogisto; deveriam perguntar: “Que espécie de processo é a combustão?” antes de ver que não atuava nela uma substância especial, mas era simplesmente um caso particular de combinação química.

Quando chegamos ao que usualmente se denomina o fundamental, aumenta muito a dificuldade de não fazermos a pergunta indevida. Entre a maioria das tribos africanas, se uma pessoa morre, a única pergunta que se faz é: “”Quem causou sua morte, e por qual forma de magia?”. A idéia de morte pelas causas naturais lhes é desconhecida. Realmente a vida da metade menos civilizada da humanidade se baseia largamente na tentativa de achar uma resposta a uma pergunta errada. “Que forças ou poderes mágicos são responsáveis pela boa ou má sorte, e como eles podem ser iludidos ou propiciados?”

Não creio na existência de um deus ou de deuses. O conceito de divindade parece-me ser, embora construído sobre uma quantidade de elementos reais da experiência, um conceito falso, baseado no postulado inteiramente injustificável de que deve haver algum poder mais ou menos pessoal no controle do mundo. Defrontamo-nos com forças alheias ao nosso domínio, com desastres incompreensíveis, com a morte; e também com o êxtase, com o sentido místico da união com algo maior que o nosso próprio eu, com a conversão súbita para um novo caminho de vida, com a aflição da culpa e do pecado, e com as maneiras pelas quais todas essas aflições podem ser exaltadas. Nas religiões teístas todos esses elementos de experiência atual foram entrelaçados num corpo unificado de crença e prática em relação ao postulado fundamental da existência de um deus ou de deuses.

Creio que esse postulado fundamental é nada mais do que o resultado da formulação de uma pergunta falsa: “Quem ou o que rege o universo?” Até onde podemos observar, ele se rege a si próprio, e na verdade qualquer analogia com um país e seu governante é falsa. Mesmo que um deus exista atrás ou acima do universo conforme o experimentamos, não podemos ter nenhum conhecimento de tal poder: os deuses atuais das religiões históricas são apenas as personificações de fatos impessoais da natureza e de fatos de nossa vida mental interior. Embora possamos responder à pergunta: “O que são os deuses das religiões?” só o podemos fazer dissecando-os em seus componentes e mostrando que sua divindade é apenas um invento da imaginação, da emoção e da racionalização humanas. A pergunta: “Qual é a natureza de Deus?” não podemos responder desde que não temos meios de conhecer se existe ou não tal ser.

O mesmo acontece com a imortalidade. Com as nossas faculdades atuais não possuímos meios para dar uma resposta categórica à pergunta se sobrevivemos à morte, e muito menos à pergunta de que seria tal vida depois da morte. Sendo assim, é uma perda de tempo e energia dedicarmo-nos ao problema de conseguir a salvação na vida por vir. Contudo, assim como a idéia de Deus é construída sobre as pedras da experiência real, assim também a idéia de salvação. Se traduzirmos salvação em termos deste mundo, vemos que ela significa realização harmônica entre as diversas partes de nossa natureza, incluindo suas profundezas subconscientes e suas elevações raramente tocadas, e também realizando alguma relação satisfatória de ajustamento entre nós próprios e o mundo externo, incluindo não somente o mundo da natureza, mas o mundo social do homem. Creio que é possível “conseguir a salvação” nesse sentido, e que está bem tratar de consegui-la, assim como creio que é possível e valioso realizar um sentido de união com algo mais elevado do que nós próprios, mesmo que esse algo não seja um deus, mas uma extensão de nossos corações estreitos para que apreenda de uma só vez experiências de natureza externa e interna que não alcançamos comumente.

Mas se Deus e a imortalidade são repudiados, o que resta? Tal é a pergunta usualmente atirada ao ateu. O crente ortodoxo compraz-se em pensar que nada fica. Isso, contudo, é porque se acostumou a pensar somente em termos de sua ortodoxia.

Na realidade fica muita coisa.

Isto é imediatamente óbvio pelo fato de que muitos homens e mulheres levaram vidas ativas, sacrificadas ou nobres, ou vidas devotadas sem qualquer crença em Deus ou na imortalidade. O budismo, na sua forma incorrupta, não tem tal crença, nem o tiveram os grandes agnósticos do século XIX, nem os comunistas russos ortodoxos, nem os estóicos. Naturalmente, os descrentes muitas vezes se tornaram culpados por ações egoístas ou más, mas os crentes também. E, de qualquer modo, isto não constitui ponto fundamental. O ponto é que sem essas crenças, homens e mulheres podem ter uma existência plena e cheia de propósito, e uma sensação de que a existência pode ser digna de ser vivida, tão poderosa quanto é possível aos crentes mais devotos.

Devo dizer que isso é muito mais fácil hoje em dia do que em qualquer época anterior. A razão se encontra nos progressos da ciência.

Não somos mais obrigados a aceitar as catástrofes externas e as misérias da existência como inevitáveis ou misteriosas; não somos mais obrigados a viver em um mundo sem história, onde a mudança não tem sentido algum. Nossos antepassados consideravam a epidemia como um ato de punição divina; para nós é um desafio a ser vencido, porque conhecemos suas causas e sabemos que pode ser dominada ou prevenida. A compreensão da moléstia infecciosa se deve, inteiramente, ao progresso científico. Também o é, para citar um fato recente, o nosso conhecimento da base da nutrição, que encerra novas possibilidades de saúde e energia para a raça humana. Também o é nossa compreensão dos terremotos e das tempestades; se não os podemos dominar, pelo menos não os receamos como prova da ira de Deus.

Pelo menos algumas de nossas misérias íntimas podem ser eliminadas do mesmo modo. Por meio do conhecimento derivado da psicologia podemos evitar que as crianças cresçam com um sentimento anormal de crime, tornando a vida um peso tanto para elas próprias como para aqueles com quem entram em contato. Estamos começando a compreender as raízes psicológicas do medo irracional e da crueldade irracional: um dia seremos capazes de tornar o mundo um lugar mais agradável, evitando seu aparecimento.

Os antigos não possuíam história digna de ser mencionada. A existência humana no presente era considerada como uma degradação daquela Idade de Outro original. Até o século XIX o conhecimento da história humana era considerado pelas nações do Ocidente como uma série de episódios sem sentido, comprimidos no breve espaço entre a Criação e a Queda, alguns milhares de anos atrás, e a Segunda Vinda e o Juízo Final, que poderiam cair sobre nós a qualquer momento, e em qualquer caso não poderiam ser afastados por mais de alguns milhares de anos no futuro. Nessa perspectiva um milênio era quase uma eternidade. De acordo com esse ponto de vista não estranha que a vida parecesse para a grande massa da humanidade “má, brutal e curta”, suas misérias e faltas simplesmente surpreendentes a não ser que as iluminasse à luz ilusória da religião.

Hoje a história humana se funda na pré-história e a pré-história por sua vez na evolução biológica. Nossa escala de tempo está profundamente alterada. Um milhar de anos é um tempo curto para a pré-história, que pensa em termos de centenas de milhares de anos, e um tempo insignificante para a evolução, a qual lida com períodos de dez milhões de anos. O futuro se estende igualmente como o passado: se levou milhões de anos para a vida primitiva gerar o homem, o homem e seus descendentes possuem pelo menos igual lapso de tempo diante de si.

O mais importante é que a nova história possui uma base de esperança. A evolução biológica foi terrivelmente vagarosa e terrivelmente dissipadora. Foi cruel, gerou os parasitas e as pestes assim como os tipos mais agradáveis. Levou a vida para inúmeros becos sem saída. Mas, a despeito disso, realizou progresso. Em certos setores; cujo número diminuiu firmemente com o tempo, evitou o beco sem saída da mera especialização, mais harmonioso e mais eficiente, do qual poderia novamente atirar-se para um maior domínio, maior conhecimento e maior independência. O progresso é, caso o queiram, a especialização total. Finalmente, apenas uma linha foi deixada que pudesse realizar um progresso ulterior: todas as outras haviam levado a becos sem saída. Essa linha foi a que conduzia à evolução do cérebro humano.

Isto, de um salto, alterou a perspectiva da evolução. A experiência agora podia ser transmitida de geração a geração; o propósito deliberado podia substituir a tentativa cega da seleção, a mutação podia ser realizada com uma rapidez mil vezes maior. No homem a evolução podia tornar-se consciente. Admitamos que ainda esteja longe de ser consciente, mas existe possibilidade, e foi pelo menos conscientemente encarada.

Vista sob esta perspectiva, a história humana não representa senão a mais mesquinha porção do tempo que o homem tem diante de si. Trata-se tão só dos primeiros passos incertos e trôpegos do novo tipo, que nasceu herdeiro de tanta história biológica. Vêem-se em toda a sua inutilidade as tentativas para uma filosofia geral da vida como se alguém, cujo conhecimento da espécie humana se limitasse a uma criança de um ano, tentasse fazer uma relação geral da alma e do espírito humanos. Os constantes retrocessos, a falta de adiantamento em certos aspectos durante cerca de dois mil anos, são considerados como fenômenos tão naturais como os tombos de uma criança que está aprendendo a andar ou o desvio da atenção de um menino sensível pela necessidade de ganhar a vida.

Os grandes fatos permanecem. A vida progrediu mesmo antes da primeira evolução do homem. A vida progrediu mais pela evolução do homem. O homem progrediu durante meio milhão – ou quase este tanto – de anos desde a primeira Hominidae , mesmo durante os dez mil anos após a melhora final do clima, depois da Idade Glacial. E as potencialidades de progresso que são reveladas, uma vez que seus olhos se abriram para o panorama evolucionista, são ilimitadas.

Afinal temos uma teoria otimista ao invés de pessimista deste mundo e de nossa vida nele. Admitimos que o otimismo não pode ser fácil, e deve ser temperado pela reflexão acerca da extensão do tempo que requer a dura tarefa que será necessária, e do inevitável resíduo de acidentes e desgraças que ficará. Talvez fizemos melhor em chamá-lo de critério melhorado antes de otimista, mas pelo menos prega a esperança e inspira a ação.

Creio muito decididamente que, entre as personalidades humanas, é que existem as mais elevadas e as mais valiosas realizações do universo – ou pelo menos as mais elevadas e mais valiosas realizações das quais temos ou, aparentemente, podemos ter conhecimento. Isso significa que eu creio que o Estado existe para o desenvolvimento do indivíduo e não os indivíduos para o desenvolvimento do Estado.

Mas também creio que o indivíduo não seja algo isolado, separado. Um indivíduo é um transformador da matéria e da experiência, é um sistema de relações entre sua própria base e o universo, incluindo outros indivíduos. Um indivíduo pode crer que deveria dedicar-se inteiramente a uma causa, mesmo sacrificando-se por ela: seu país, a verdade, a arte, o amor. É na dedicação ou no sacrifício que ele se torna mais ele próprio, e é por causa da dedicação ou do sacrifício dos indivíduos que as causas se tornam valiosas. Mas está claro que o indivíduo deve subordinar-se à comunidade de muitos modos; somente não até o ponto de crer que na comunidade reside qualquer virtude mais alta que a dos indivíduos que a compõem.

A comunidade provê o maquinismo para a existência e desenvolvimento dos indivíduos. Existem aqueles que negam a importância do maquinismo social, que asseguram que a única coisa importante é a mudança na maneira de sentir, e que o maquinismo adequado é apenas uma conseqüência natural da atitude interior correta. Isto me parece simples solipsismo.  As diferentes espécies de maquinismo social predispõem a diferentes atitudes internas. O maquinismo mais admirável é inútil se não mudar a vida interior; mas sim o maquinismo social para tornar a guerra mais difícil, para promover a saúde, para acrescentar interesse à vida. Não desprezamos a máquina em nosso zelo pela plenitude da vida, assim como não haveremos de sonhar que o maquinismo poderá jamais produzir, automaticamente, a perfeição da vida.

Creio na diversidade. Todo biólogo sabe que os seres humanos diferem nas suas conformações hereditárias, e, por conseguinte, nas possibilidades de realização. A psicologia nos mostra quão diferentes são os tipos que se esbarram nas ruas do mundo. Soma nenhuma de persuasão ou educação pode fazer com que o extrovertido compreenda realmente o introvertido, o verbalista compreenda o amante do serviço mecânico, o não matemático ou não musicista compreenda a paixão do matemático ou do músico. Podemos experimentar proibir certas atitudes do espírito. Poderíamos teoricamente extirpar grande parte da variedade humana. Mas isso seria um sacrifício. A diversidade não é somente o sabor da vida, mas a base da realização coletiva. E o complemento da diversidade é a tolerância e a compreensão. Isto não significa avaliar por igual todos os valores. Devemos proteger a sociedade contra os criminosos; devemos lutar contra o que julgamos errado. Mas assim como no trato do criminoso em que devemos experimentar reformá-lo antes de simplesmente castigá-lo, também devemos experimentar compreender porque julgamos erradas as ações dos outros, o que implica experimentar compreender o funcionamento de nossa própria mente e dar desconto aos nossos próprios preconceitos.

Finalmente, creio que jamais poderemos reduzir nossos princípios a uns poucos termos simples. A existência é demasiadamente variada e complicada. Devemos completar os princípios com a fé. E a única fé que é a um tempo concreta e compreensiva é a fé na vida, na sua abundância e no seu progresso. Finalmente creio na vida.

Tradução de P. H. Saldanha

Julian Sorell Huxley (1887-1975) foi um biólogo, escritor, humanista e divulgador científico britânico. Irmão do escritor Aldous Huxley que escreveu o livro Admirável Mundo Novo, e neto do biólogo Thomas Henry Huxley, colega e defensor das idéias de Charles Darwin. Foi também o primeiro diretor geral da UNESCO e fundador do WWF.

 

Fonte: polegaropositor.com.br