Qual o Sentido da Vida

“Aquele que aperfeiçoa o conhecimento sobre a natureza recusa absolutamente a aceitar a autoridade apenas pelo que ela é. Para ele, o ceticismo é o maior dos deveres, e a fé cega é o único pecado imperdoável”
Thomas H. Huxley


Nós nascemos isentos de qualquer conhecimento do mundo que nos cerca. Nosso cérebro, para todos os efeitos, vem ao mundo como um baú aberto, pronto para ser recheado com as informações que sejam da conveniência de quem vai nos formar, no caso, nossos pais. Quando muito, podemos dizer que as únicas funções para o qual o cérebro está preparado no momento do nascimento e nos dias que o sucedem estão ligadas aos nossos instintos mais profundos: a alimentação, o calor, as necessidades fisiológicas.

Pouco a pouco, sem que tomemos conhecimento disso, esse cérebro age de forma a captar aquilo que o cerca. Assimilamos as características físicas das figuras que nos cercam, aprendemos a sentir segurança quando os entes de nossa família nos pegam no colo e a sentir medo quando algum visitante inesperado nos ameaça com caretas e beliscões na bochecha. Mais tarde, pronunciamos as primeiras palavras, para delírio de nossos pais. Com o passar do tempo, desenvolvemos um senso crítico particular que nos permite espernear para alcançar nossos objetivos e rir das situações que achamos engraçadas, depois controlamos nosso trato intestinal, abandonando as fraldas.

Quando, na escola, enfrentamos a sociedade – que nos é anônima – pela primeira vez, percebemos que existem muitos como nós, e que todos estão na mesma fase de aprendizado, e também distinguimos outros adultos como nossos pais que têm a incumbência de nos ensinar o que ainda não aprendemos em casa. Conhecemos novos líderes. Separamo-nos em clubes do Bolinha e da Luluzinha, numa competição para ver quem é o melhor e tem mais esperteza. Invariavelmente, acreditamos que não há muito que nos possa ser ensinado. Não damos muita importância ao conteúdo que absorvemos. A infância é uma realidade tão agradável que, ao imaginarmos nosso futuro, poucos se veem como adultos. Seremos crianças para sempre.
 
A puberdade chega com sua avalanche de novos hormônios em produção acelerada e, repentinamente, desenvolvemos uma nova perspectiva do mundo. Tudo nos parece novo. Vemos o sexo oposto – e, às vezes, o mesmo sexo - com olhos desejosos, começamos a explorar nosso corpo e o ambiente que nos cerca, nos embrenhamos em novos conhecimentos, vemos o mundo se transformar e sentimos essa transformação em nós mesmos. À noite, temos sonhos estranhos, durante o dia, trocamos segredos com nossos amigos. Subitamente, passamos a desconfiar dos nossos pais, eles já não são nossos amigos mais íntimos. Erguemos uma barreira no relacionamento familiar que antes era tão estreito e nos amotinamos contra a família enquanto buscamos popularidade nos novos círculos. Essa revolução é, quase sempre, marcada pelo estilo tribal das roupas, pelos cortes e cores diversas que adotamos no cabelo, por piercings e tatuagens, gírias e desafios verbais.

Quando adultos, percebemos o quão desagradáveis fomos durante a adolescência. Surge a consciência de que, se pudéssemos, voltaríamos atrás para corrigir muitos dos erros que cometemos. Voltamos a estreitar os laços com nossos pais, repentinamente conscientes de sua fragilidade e amor incondicional. Pensamos cada vez mais no futuro e desejamos cada vez mais o passado. Criamos responsabilidade com os primeiros empregos, com a manutenção de nossas próprias necessidades, com a busca da realização de nossos sonhos – cada vez mais concretos. O conhecimento surge como outra necessidade a ser suprida, uma espécie de fome que nos assalta; queremos aprender mais sobre o mundo em que vivemos.
Por fim, num instante não determinado, descobrimos que viver sozinho é para os répteis. Em algum momento descobrimo-nos conhecendo alguém que nos preenche as necessidades físicas e emocionais e irradiamos a felicidade por distinguirmos, entre tantos milhões de pessoas, aquela que seria a certa para dividir conosco as imposições e vitórias da vida. Elogiamos a logística dos relacionamentos que, notavelmente, colocou nossa alma gêmea tão próxima de nós. Agora fazemos planos em conjunto. Casa, quartos, enxoval, alianças, casamento, convidados, lua-de-mel. Contas, viagens, investimentos, planos de carreira, planos de futuro. Maternidade, berço, leite, pediatras, roupas para o bebê, brinquedos. Tênis, pré-escola, material escolar, mais brinquedos, bichinhos de estimação.

E, de repente, você percebe que sua vida traçou um círculo fechado, quase inevitável. O bebê de ontem é o papai de hoje.

Em cada momento dessa longa e extenuante existência você adquire conhecimento. Muitos de nós levamos a vida de forma desapaixonada, mas a maioria mantêm-se aberta a novas perspectivas. O aprendizado é constante. Mesmo no fim do segundo ou terceiro círculo, quando você é o avô ou bisavô de um pequeno batalhão de crianças alegres e febris, você continua a aprender. O aprendizado é incessante. Nunca conseguimos aprender tudo que queremos. Morremos antes.

Em meio a essa constante assimilação de novos conceitos, ideias e emoções, são muitos aqueles que abrem mão de sua sabedoria para apreender uma nova visão do mundo ou de si próprios, mas poucos aventuram-se a experimentar o abandono total das certezas com que foram criados. A maioria de nós experimenta breves incursões a filosofias que desafiam nossas crenças, mas, temerosos de adentrarmos num universo hostil, voltamos atrás, procurando novamente a segurança engessada de nosso conhecimento de berço. Pouquíssimos têm a coragem de aventurar-se no oceano de novos conhecimentos que se oferece quando se busca por eles. Quando muito, molham os tornozelos, mas assustam-se com as águas escuras e revoltas e voltam para a segurança da praia.

Desde crianças aprendemos a viver em segurança e evitar aquilo que nos é desconhecido. Sentimos medo do que o escuro possa reservar para nós. Quando nos aventuramos para longe de casa pela primeira vez, sentimos um misto de orgulho e pavor ao adentrarmos em horizontes incógnitos. Mas a fome de exploradores nos chama. Pouco a pouco, aumentamos nossa esfera de compreensão. Percebemos que o mundo é muito maior do que aprendemos na escola, na família, na cidade onde crescemos. Vem à tona o instinto exploratório que permitiu aos nossos distantes antepassados de quatrocentas gerações atrás ultrapassarem os limites dos vales onde viviam em busca de novas fronteiras. Somos desbravadores.

Mas o mesmo não se pode dizer de nosso universo interior. Gostamos de sentir que nosso conhecimento é absoluto e que nossa segurança reside naquilo que sabemos. Mesmo depois de adultos, o desconhecido nos assombra. Nos momentos de maior pavor, sentimos o desejo da proteção paterna, alguém que nos salve de nossos próprios medos. Na ausência dos pais, clamamos a deus ou aos santos que nos amparem. Misturamo-nos à massa que flutua entre a passividade e o conformismo, figuras anônimas, protegidas pelo bem comum da santificada ignorância. A massa parece sempre satisfeita, portanto, é segura.

É preciso coragem extraordinária para enfrentar a escuridão do conhecimento. Questionar significa inevitavelmente abrir mão de seu pré-conhecimento em detrimento de novos conhecimentos que já foram alcançados por outras pessoas. Questionar significa estar apto a aprender. E aprender significa perder. Perder a segurança do absoluto, do inalterável, do incontestável.

Para o verdadeiro viajante do oceano da ignorância, essas perdas são brevemente compensadas por pequenos lampejos de aprendizado que vislumbramos durante a jornada. Sob muitos aspectos, essa compensação é satisfatória. Sentir-se ignorante é o prêmio daquele que busca sempre conhecer mais sobre o Universo. Nesse oceano, o conhecimento apreendido surge como ilhas isoladas, paraísos aos quais ancoramos para beber a água cristalina de suas fontes para prosseguir viagem, carregando no íntimo as lembranças do nosso aprendizado.

É notório entre aqueles que buscam o conhecimento que, quanto mais se aprende, menor você se sente. Sócrates, ao ser avisado que havia sido escolhido como o mais inteligente homem de seu tempo replicou: “Só sei que nada sei”. A humildade vem com o aprendizado. É quase inevitável. Ao percebermos nossa pequenez diante de um Universo infinito e de uma Humanidade que já explorou todas as vertentes da filosofia e da ciência, nossa perspectiva de genialidade é subitamente eclipsada. Vemos que as pedras do caminho que estamos traçando estão gastas. Muitos já viveram essa experiência antes. Nosso prêmio, se é que pode-se dizer assim, é o aprendizado que eles nos deixaram.
Não vivemos num planeta de gênios pelo simples fato de que o conformismo dita as regras do comportamento social. Milhões de horas de pensamento e raciocínio inventivos são perdidas diante de aparelhos de televisão quando poderiam estar sendo aplicadas no aprendizado múltiplo das disciplinas humanas, em livros de história, em laboratórios de química e física, em aulas de ciência, em seminários de tecnologia. Como afirmou o filósofo francês Jean Baudrillard, “justamente as massas não têm história a escrever, nem passado, nem futuro, elas não têm energias virtuais para liberar, nem desejo a realizar: sua força é atual, toda ela está aqui, e é a do seu silêncio”.

Ao nos separarmos da apatia reinante das massas passamos a enxergar o mundo com olhos mais críticos. Sentimos um prazer indescritível quando descobrimos aspectos do mundo que antes nos eram nebulosos. Muitos encontram esse prazer na filosofia, outros nas artes e alguns, ainda, nas ciências. A dor que sentimos quando descobrimos que somos simples receptáculos de informação cede lugar ao prazer inenarrável do aprendizado. Prazer semelhante pode ser encontrado nas igrejas, nos templos, nas tavernas e bares, nas boates e danceterias e até nas drogas. Mas são prazeres passageiros e egoístas, que nos suprem por alguns momentos de nossa vida para depois nos abandonar, exigindo uma nova dose para que ressurjam por mais alguns breves instantes. Já a ciência nos alimenta com conhecimento e discernimento e nos engrandece perante nossos semelhantes. Paralelo à humildade que sentimos despertar em nosso íntimo, surge também o orgulho de percebermos que o mundo guarda menos segredos de nós. Gustave le Bon traça um paralelo interessante quando compara os dois tipos de prazer que podem dominar o Homem em ‘As Opiniões e as Crenças’.


“Diz com razão a sabedoria popular que cada qual tem o seu prazer onde o encontra. O prazer do operário que bebe e vocifera na taverna, sensivelmente difere do prazer do artista, do sábio, do inventor, do poeta, ao comporem as suas obras. O prazer de Newton, ao descobrir as leis da gravitação, foi, sem dúvida, mais vivo do que se ele houvesse herdado as numerosas mulheres do rei Salomão”.

Tal comparativo não é, de forma alguma, desprovido de sentido. Certamente há satisfação nos prazeres mundanos e mesmo os maiores gênios se entregaram a eles vez ou outra. Dizem que Albert Einstein era um adepto entusiasta do álcool, da música e das mulheres belas. No entanto, que heranças esses prazeres vulgares podem deixar a uma Humanidade sedenta de progresso e crescimento? Por acaso o pai ensina ao filho as virtudes da vulgaridade? Por acaso a mãe orgulha-se das bebedeiras e conquistas sexuais de seus filhos? Parece mais correto acreditar que uma herança mais digna venha a cargo de um aprendizado que possa ser passado adiante, da altivez do discernimento e do julgamento justo. Isaac Newton, quando de sua descoberta da lei da gravitação, deve ter se rejubilado pela consciência desperta que havia compreendido uma das mais simples e básicas leis do Universo. Será que podemos imaginar o prazer saboreado pelos maiores gênios da história ao desvendarem os segredos do Universo e do Homem e imaginar que suas descobertas seriam, a partir de então, ensinadas nas escolas indefinidamente? Provavelmente não.

Ao penetrarmos nos escudos obscuros da ciência, das artes e da filosofia sentimos despertar em nosso íntimo o desejo insaciável de continuidade. Uma vez que uma luz ilumine o que nos parecia misterioso e insólito, percebemos que não existem mistérios que resistam ao escrutínio de nossa curiosidade, percebemos que para cada pergunta existe uma resposta. E, assombrados pelas infinitas perspectivas que assomam no horizonte do saber, aprendemos que é muito mais viável e interessante vivermos na busca incessante do conhecimento. Até mesmo Lisa Simpson, a filha do meio do famigerado Hommer, exemplo de ponderação e sensatez, em um dos mais engraçados episódios da série volta-se para seu pai e diz: “Olha, você pode aceitar a ciência e encarar a realidade ou pode acreditar em anjos e viver num mundo infantil”.

Acreditar em anjos é a questão mais profunda dessa busca. A religião tem sido, segundo os maiores filósofos da história, um dos maiores obstáculos para o desenvolvimento pleno das ciências e do conhecimento ilimitado. Durante gerações sem conta, ela agiu como inquisidora contra o aprendizado científico e agora, em plena era da liberdade de pensamento, ela ainda atua com uma espécie de contratempo, onde a culpa é sua arma mais poderosa na guerra pelo saber absoluto.

É comum ouvirmos de muitos de nossos entes próximos frases fabricadas como “Veja a elegância do Universo. Só mesmo deus para criar algo tão grandioso e belo”, ou “a natureza é tão vasta e diversificada que é a prova viva da criação de deus” e ainda “graças a deus a Humanidade alcançou o atual estágio de desenvolvimento que se encontra”. Agradecemos a deus pelas nossas conquistas e nos questionamos porque ele permitiu que alguns infortúnios viessem a nós. Mas, quando nos embrenhamos pelos caminhos da ciência, percebemos que, na vasta maioria dos casos, não há desígnios divinos no comando das ações da natureza e da sociedade. Tudo tem uma explicação válida e pouco do que acontece fica reservado às esferas do inexplicável. No constante avanço da ciência e da filosofia, poucos são os mistérios que resistem ao desenvolvimento do Homem.

Quando percebemos que o mistério e o oculto podem ser explicados de forma racional, nossa curiosidade se atiça. Dominados pelo desejo de novas descobertas, penetramos no cerne de questões que, na passividade herdada da infância, antes nos pareciam proibidas. Descobrimos – com alguma angústia – que a visão antropomórfica de nossa existência era apenas uma noção distorcida de uma realidade impossível, e vemos, com horror, que esse caminho pode ser sem volta. Reunindo a coragem necessária, seguimos adiante, preparados para as augúrias da experimentação científica. Henry Louis Mencken nos diz sabiamente que, nesse processo, percebemos que “a vida do Homem, quanto mais estudada à luz da biologia geral, parece cada vez mais vazia de significado. O que, no passado, deu a impressão de ser a principal preocupação e obra-prima dos deuses, a espécie humana começa agora a apresentar o aspecto de um sub-produto acidental das maquinações vastas, inescrutáveis e provavelmente sem sentido desses mesmos deuses”.

A ciência dá um sentido frio e desapaixonado à nossa vida e ao Universo que nos cerca. Perscrutando adiante em artigos especializados, impressos e livros científicos e no vasto universo virtual da Internet, vemos que a esfera de influência de deus diminui conforme a ciência avança. Inevitavelmente, esse comportamento sociológico faz surgir um número cada vez maior de céticos, racionalistas e ateus, pessoas que, sob muitos aspectos, apresentam um maior discernimento em relação às questões que nos cercam.


Uma das características mais marcantes dos céticos é o pensamento racional. Muitos foram aqueles que já tentaram definir ‘ceticismo’, mas sempre há margens para especulação. O correto parece ser não defini-lo, afinal, não crendo em absolutos, uma definição engessada parece um contratempo ao ceticismo. Como disse o filósofo contemporâneo Peter Huston em seu artigo ‘O Ceticismo Como Técnica de Autodefesa Intelectual’, “a sugestão inicial é que nós paremos de tentar pensar no ceticismo como uma filosofia e simplesmente ao tratemos como uma técnica com alcance e utilidades limitadas”.

Porém, seria correto dizer também que o cético não acredita em uma informação duvidosa sem a apresentação de dados que comprovem tal informação. A pedra fundamental da filosofia cética é o empirismo e o racionalismo. O empirismo serve como base central dos processos científicos, afinal, traduz-me mais ou menos como a defesa arraigada de que seu conhecimento é o reflexo de suas observações do mundo, um pensamento baseado em investigação científica e raciocínio dedutivo. Já o racionalismo foi brilhantemente definido por René Descartes ainda no século 17 e pouco há que se possa dizer contra sua definição, ficando, assim, nosso compromisso com esta.


“O racionalismo pode consistir em considerar a razão como essência do real, tanto natural quanto histórico, sustenta a primazia da razão, da capacidade de pensar, de raciocinar, em relação ao sentimento e à vontade, pressupondo uma hierarquia de valores entre as faculdades psíquicas, ou a posição segundo a qual somente a análise lógica ou a razão pode propiciar desta forma o desenvolvimento da análise científica, do método matemático, que passa a ser considerado como instrumento puramente teórico e dedutivo (...) uma crescente fé na capacidade do intelecto humano para isolar a essência no real e ao surgimento de uma série de sistemas metafísicos fundados na convicção de que a razão constitui o instrumento fundamental para a compreensão do mundo, cuja ordem interna, aliás, teria um caráter racional”.


O cético, dessa forma, alimenta um compromisso que tem entre si mesmo e a verdade. A despeito de suas crenças pessoais, posicionamento político ou classe econômica, ele parece, muitas vezes, deslocado de qualquer vertente, visto embrenhar-se em debates diversos, sempre proclamando a voz da razão. Como foi bem lembrado por Huston, ele “frequentemente parece abarcar mais do que pode lidar e acaba parecendo algumas vezes um apanhado de pequenas peças de várias filosofias, doutrinas e ciências”. Mas essa característica inerente a todos os céticos tem raízes profundas. Se, durante uma conversa, surgir uma informação que pareça questionável, o cético irá fazer sua parte, ele irá defender a conversa com questionamentos. Isso sempre o faz parecer um apanhado de várias doutrinas e ciências. Um exemplo simples. Imagine que sua amiga de classe ou trabalho chegue na segunda-feira e diga que, durante o fim-de-semana, ela e o namorado foram abduzidos e levados a bordo de um disco-voador. Se tiver algum cético na turma, ele certamente exigirá provas materiais da aventura e submeterá a abduzida a uma série de perguntas inescrupulosas e humilhantes. Mesmo que ele não seja profundo conhecedor de engenharia aeroespacial ou exobiologia, ele conhecerá perguntas suficientes para, provavelmente, desmentir a pobre abduzida. Isso porque assuntos ligados à ufologia já fazem parte da cartilha de formação de um cético. Essas são, talvez, as primeiras alegações que o cético aprende a questionar. Mesmo entre adeptos de crenças e filosofias diversas que não abarquem o ceticismo, é difícil encontrar quem não duvide de uma abdução. Mas o exemplo serve ao propósito mesmo dos que creem em processos questionáveis aos céticos. O cético questiona deus, mas tanto o cético quanto o teísta questionam abduções.

O aprendizado do questionamento pode transformar o cético numa pessoa desagradável para muitos. É realmente incômodo enfrentar uma pessoa que, num bate-papo de bar que desvirtue para experiências extracorpóreas, alienígenas ou aparições divinas, bate na mesa e defende que, seja qual for essa experiência, ela provavelmente deve ter acontecido em estados de semi-lucidez ou esquizofrenia. Muitos recolhem-se e engolem em seco antes de contar suas aventuras a um cético. Acostumado a questionar tudo e todos, o cético não cairá facilmente em contos do vigário ou histórias da carochinha. Ele sempre irá torcer o nariz para uma história que seja improvável demais, ou que careça de provas comprobatórias. E essa atitude, muitas vezes, costuma afastar as pessoas e causar algum rancor.

Nada com o qual um cético calejado não esteja acostumado. Muitos são aqueles que já perderam amigos e cujos parentes afastaram-se devido sua intransigência com o fantástico e o absoluto. Ao contrário do humorista compulsivo que perde o amigo, mas não perde a piada, o cético prefere evitar alguns confrontos para manter-se em harmonia com algumas pessoas.

É difícil ser cético. É difícil agradar.

Muitos são aqueles que pensam que o cético é aquele que questiona tudo, uma figura sectária aprisionada a dogmas rígidos impostos pela ciência, pronto para refutar quaisquer informações abstratas com as quais se depare. E muitos realmente se comportam dessa forma. Ao ouvir um testemunho de cura, o cético pedirá uma análise médica que comprove a alegação e uma análise científica que possa comprovar ou refutar a cura milagrosa. Diante de qualquer informação desconfiável, ele se armará para contra-argumentar. Esse comportamento não é, de forma alguma, um recurso intolerante que visa envergonhar ou humilhar os ditosos expectadores de processos sobrenaturais. É apenas a forma lúcida e coerente que o cético encontrou para colher a verdade.

Seria comum ouvir em rodinhas de bate-papo que a verdade é algo relativo, que o que é verdade para uns pode não sê-lo para outros. Mas a verdade que estamos debatendo aqui é aquela que pode ser cientificamente comprovada, uma verdade que receba o aval do empirismo e do racionalismo. A verdade tem que ser provada. Ela não pode basear-se em fé. Não se quisermos ter uma ideia ampla e justa de como funcionam os processos naturais. Além disso, como foi bem lembrado pelo escritor Mateus Davi, autor do livro ‘Entre a Fé e o Niilismo’, o pensamento cético serve “para que você não seja enganado por astutos nem feito de bobo em discussões onde você tem razão. Longe de ter aplicação só em assuntos ligados à religião (...) o raciocínio lógico desenvolve em cada um a capacidade surpreendente de encadear ideias e expor pensamentos, bem como entregar os argumentos falaciosos para o seu devido lugar, o cadafalso”.

O cético também não é um inquisidor, no sentido que possamos aplicar à palavra como sendo uma pessoa que condena o comportamento e a filosofia alheia. Na verdade, o cético padece como vítima do interrogatório rígido da grande massa crente que se encontra ao seu redor. Seria correto, na concepção cética, usar o termo ‘crente’ ou ‘aquele que crê’ como sendo qualquer pessoa atraída por filosofias e religiões de dogmas não-cientificamente comprováveis, seja ela mística, religiosa, ufológica ou esotérica. Assim, na boca do cético, a palavra ‘crente’ tem uma amplitude maior do que a aplicação nominal a evangélicos e protestantes, definição comum no Brasil.

O cético, cercado pelos crentes, é visto como uma aberração entre normais. Poucos são aqueles que conseguem resistir à tentação de perguntar ao cético sobre deus, ou vida eterna, ou sorte e azar. Muitos, certos de que é impossível viver sem a crença num deus, entram em debates filosóficos, onde citam fatos históricos que são tão igualmente improváveis quanto as passagens bíblicas mais extravagantes. Comumente, eles pressionam o cético para que ‘aceite’ ou ‘enxergue’ a Verdade, com ‘V’ maiúsculo, o que a diferencia de todas as outras verdades (as outras, com ‘v’ minúsculo). Os religiosos são os mais afoitos desse grupo. De 145 céticos entrevistados por este autor na comunidade Céticos S.A., do site de relacionamentos Orkut, em 2007, 102 consideram os evangélicos o grupo mais intransigente, quando o assunto é a conversão do cético. Os evangélicos contam prêmios para cada conversão que fazem, e te ameaçam com o inferno caso não aceite Jesus. É um preceito deles arrebanhar almas para o paraíso. Quão mais descrente mostra-se uma pessoa, mais ela receberá o bombardeio dos evangélicos pela conversão. O cético é um prato cheio. O ateu é um banquete completo. Com garçom.

Formado o pensamento racional, é provável que o cético passe por quatro fases em sua evolução de comportamento. Na primeira, ele defende arraigadamente seu pensamento, procura inserir polêmica a cada alegação extraordinária que ouve. Ele é, sob alguns aspectos, tão intransigente quanto acredita que sejam seus oponentes. Essa fase talvez possa ser chamada de ‘refutação’. Na segunda, o cético procura adquirir mais conhecimento, porque viu que alguns de seus oponentes – e muitos de seus semelhantes – possuem uma erudição capaz de transformar em polêmica qualquer assunto enfadonho. Ele normalmente encontra, durante essa fase, seu autoconhecimento. A consciência quase sempre dolorosa de ser extremamente crítico. A essa fase podemos chamar de ‘assimilação’. Na terceira, o cético está novamente preparado para entrar na arena das discussões. Só que, desta vez, de mísero ruminante ferido, ele volta como leão faminto. Seu conhecimento já está suficientemente desenvolvido para que possa aniquilar alguns oponentes mais fortes. Essa fase pode se chamar ‘reafirmação’. Por fim, na quarta fase, o cético sentirá o desejo ardente de passar adiante seu conhecimento. Em sua busca pela verdade, ele aprendeu muitas coisas tão interessantes que decide, num rompante, que seu conhecimento deve ser levado a outros pelo conteúdo extremamente válido. Se ele pôde adquirir mais coesão e discernimento de pensamento através desse aprendizado, ele certamente acreditará que seu conhecimento pode ser levado a outras pessoas. Ele se torna a base do comportamento do cético recém-formado. Esta quarta fase pode ser chamada de ‘divulgação’.

A própria massa humana, historicamente, às vezes atravessa fases de ceticismo, mas não se detêm muito tempo nelas. Há uma necessidade do Homem em ser conduzido por um credo religioso, político ou moral que o poupe da necessidade de pensar. A fé, de certa forma, é um sentimento tão primordial da Humanidade quanto o prazer ou a tristeza.

Porém, curiosamente, algumas pessoas conseguem, desde cedo, aprender a viver isentos da fé e da religião. Não aprendendo a crer em deus quando ainda eram crianças, não precisaram desenvolver a responsabilidade e o respeito a um ente superior que não os próprios pais, os familiares e os professores.

Na pequena cidade de Guaíba, no Rio Grande do Sul, existe uma família que é composta quase totalmente por ateus. Åsa Dahlström Heuser, de 50 anos, chegou ao Brasil em 1970, vinda da Finlândia juntamente com seu pai e seus irmãos. Na ocasião, o pai de Åsa (pronuncia-se Ôssa) decidiu aproveitar as oportunidades de trabalho que se abriam no Brasil e mudou-se com toda a família para o sul do País.

Tanto o pai quanto a mãe (já falecida) de Åsa, eram ateus, bem como seus avós paternos. Assim, Åsa cresceu distante do lugar-comum das crenças. Isenta das responsabilidades para com uma divindade, ela amadureceu, consciente de que estava sozinha no Universo e que não tinha qualquer papel preponderante na história deste. Mas isso não a impediu de seguir adiante com sua vida e correr atrás de seus sonhos. No Brasil, conheceu seu marido, Daniel Bueno Heuser, e juntos tiveram três filhos, Vanina, Emanuel e Martin; todos foram criados ateus, fato que lhes garantiu lugar de destaque em uma matéria sobre o tema que foi publicada na revista Veja, na edição de 05 de junho de 2002, sob o título ‘Nós Somos Ateus’.

No entanto, apesar de ganhar espaço para a divulgação de sua filosofia numa das mais concorridas revistas do cenário nacional, ainda assim Åsa Heuser pertence a um grupo limitadíssimo de pessoas. Seu aparecimento na revista foi aplaudido na comunidade ateísta nacional e ajudou a unir alguns laços entre algumas vertentes filosófico-ateístas divergentes.

Åsa Heuser faz parte de um grupo que cresce dia-a-dia no Brasil. Nos anos 70 os ateus representavam menos de 1% da população. Atualmente, o grupo dos ‘sem-religião’ chega a 5.5% da população brasileira. Nem todos são ateus. Mas uma vasta maioria já é bastante cética.

O ateísmo nem sempre é o passo final para as pessoas que não creem em seres sobrenaturais. Alguns de seus representantes, incapazes de lidar com a finitude e a falta de promessas místicas de felicidade e amor, acabam relegando sua própria educação ateísta em prol de uma crença que lhes traga mais conforto e sobriedade diante das imposições da vida. Para Åsa, tal atitude pode advir das dificuldades em se enfrentar o que ela chama de Solidão Cósmica, conceito que apreendeu em um dos livros de Carl Sagan. Para ela, “A ideia de que perante o Universo não somos nada, que estamos mergulhados na mais completa insignificância, não traz muito consolo para o ateu. Não havendo um deus para nos proteger e guiar (e punir), estamos sozinhos e desamparados. Somos obrigados a decidir por nós mesmos, assumir a responsabilidade total pelas nossas vidas. Isso torna as pessoas mais importantes, na medida em que são a única fonte de apoio. Também faz com que sejamos obrigados a aceitar a imperfeição como sendo inevitável, entender que a vida não é justa e o mundo não é bom, nem nunca será”. Ainda assim, para Åsa, promessas como a vida eterna e o paraíso celeste não só são improváveis, mas também destituídas de um significado mais profundo. “Pode parecer surpreendente, mas a ideia da não-existência que sucede à morte é justamente o que me traz paz e conforto. A eternidade é uma ideia assustadora, realmente não desejo isso”, cita ela, opostamente contrária ao medo da morte que faz com que muitos busquem na religião a paz e conforto encontrados por Åsa no ateísmo.

Acostumadas à religião desde o berço, a maioria das pessoas tem um conceito quase sempre deturpado sobre os ateus. Muitas vezes, esse conceito é tão deformado a ponto de considerarem o ateu um compactuado com o demônio (ideia repugnante, não pela associação forçada com um ser mitológico, mas pelo que representa essa associação na mente do preconceituoso), ou então alguém malévolo, cuja educação e sentimentos são adulterados e amorais a ponto de serem perigosos. Poucos dão ouvidos à defesa do ateu, visto estarem afogados em seus preconceitos. O que diriam esses radicais se vissem a pesquisa divulgada pela Organização Rofer, nos Estados Unidos, que concluiu que o comportamento moral se deteriora após o “renascer” para a religião cristã? Enquanto que 4% dos entrevistados admitiu ter dirigido bêbado antes da “conversão”, 12% o admitiram após abraçar a fé. Em relação ao uso de drogas, os índices são de 5% para 9%. Quanto ao sexo ilícito, a diferença é de 2% para 5%. Esses índices não só demonstram a incapacidade do cristianismo em influenciar positivamente o comportamento moral, mas também um maior autocontrole por parte dos não-convertidos.

A moral cristã costuma ser impiedosa com os ateus. É uma imagem que não goza de status social e, invariavelmente, é considerada estranha ou pecaminosa. Na guerra pela filosofia mais próxima da Verdade, ateus e teístas jogam-se uns contra os outros em debates que, cedo ou tarde, recaem para a ofensa pessoal ou para argumentos falaciosos e ataques deliberados à moral do oponente. Em países mais radicais como as nações do Islã, o ateísmo muitas vezes é condenável, e o ateu obrigado a sofrer humilhações públicas, açoites e mesmo, em alguns casos, a morte.

Seria correto que os ateus se juntassem para pregar contra a religião, ao modo dos religiosos mais fundamentalistas, atacando os religiosos com palavras ácidas, ofensas e mentiras? Seria esse o tipo de oposição que deveriam realizar contra a maioria teísta? Ou devemos aceitar esses julgamentos passivamente, respeitando uns aos outros, bem como suas filosofias, até que, idilicamente, todas venham a conviver harmonicamente? Talvez a saída esteja em agir como escrevi em meu primeiro ensaio sobre o tema, em 2000, publicado na Sociedade da Terra Redonda e no Ateus.Net, duas das maiores vertentes do pensamento ateísta no Brasil na época.

“A crença no além está enraizada na sociedade. Não podemos odiar aqueles que creem. Estaremos odiando nossos pais e irmãos. ‘Mas como vamos combater esse preconceito com a nossa filosofia?’ perguntarão alguns. Não vamos. Ao invés disso, vamos encarar o problema de frente e mostrar a eles que nossa filosofia é, antes de tudo, baseada na humildade”.


Mas não seria a humildade uma virtude cristã? Poderia ser, se as virtudes fossem compradas e vendidas no mercado da fé. A humildade poderia ser uma virtude exclusivamente hindu, celta ou gnóstica. Mas ela é um estado de espírito. No caso dos ateus, parte vem do conhecimento do verdadeiro Universo, aquele que nos cerca fisicamente, e parte vem da pequenez que nos domina quando percebemos as verdadeiras dimensões desse Universo, tanto no Espaço quanto no Tempo. Brilhando como simples flashs na história do Cosmos, nossa sede por conhecimento nos dá a perspectiva de que, quanto mais aprendemos, mais ignorantes nos sentimos. Só a humildade pode brotar de sentimentos assim.

A despeito dos pensamentos e do conformismo de Åsa em relação à morte, essa aceitação da finitude não é uma virtude ateísta. Muitos – eu sou um exemplo – tiveram uma criação religiosa e cresceram envoltos pelo manto sagrado de deus. Pense a respeito. Imagine o que é crescer com a segurança de que, se tudo o mais falhar, deus ainda estará presente para ampará-lo. Agora imagine que, em algum momento, como recompensa pelo seu aprendizado esforçado e pelos filósofos que leu, todas as promessas de deus lhe sejam retiradas e que mesmo a figura paterna de um salvador lhe seja vetada. Em um momento, você tem a segurança da companhia divina, da vida eterna, da felicidade e do amor incondicional. No outro, você não tem mais nada, porque descobriu que tudo era uma ilusão condicionada nos primórdios de sua vida e autoinduzida pela convivência com as promessas advindas desse compromisso.

Nesse momento, o ateu sente-se sozinho. O amparo, retirado por suas próprias convicções, passa a ser visto como uma fonte de alienação, e a morte ganha novas perspectivas. Agora ela representa o derradeiro Fim, e não tendo retorno, é como se nunca tivesse existido. No artigo ‘A Construção do Estado Ateísta’, publicado também em 2000, eu explico que “a despeito de todos saberem que a morte é inevitável, ‘nós’ a encaramos como o fim de tudo. Não esperamos nada do além-túmulo. Não estamos indo ao encontro de deus ou da eternidade. Quando nos apaixonamos, não esperamos viver no paraíso ao lado de nossas esposas ou maridos (...) Não importa o quão correta tenha sido sua vida, sua recompensa final é a retirada de tudo que lhe foi dado, de sua própria essência”.

Uma das mais tocantes e emocionantes citações ateístas veio da viúva de Carl Sagan, um dos ateus mais respeitáveis de nossa geração, quando da ocasião de sua morte, em 1996. “Nenhum apelo a Deus, nenhuma esperança sobre uma vida pós-morte, nenhuma pretensão que ele e eu, que fomos inseparáveis por vinte anos, não estávamos dizendo adeus para sempre”. São palavras terríveis, mas os ateus as têm como verdades inquestionáveis. A consciência ateísta, quando surge, nos eleva a uma percepção única. Passamos a enxergar a vida como a areia da ampulheta, que escorre inexoravelmente pela fenda estreita de vidro que separa os bojos.

Vivenciando tão intimamente o despertar do ateísmo, vez ou outra me deparo com acontecimentos cotidianos que me fazem cair em profunda meditação. Certa vez, ao ajudar uma pequena senhora idosa a entrar no metrô de São Paulo durante o rush, recebi como agradecimento um “deus lhe pague” e um sorriso sincero. O que pensaria essa senhora se soubesse que o que movera minhas intenções naquele momento foram simplesmente um gesto moral, uma obrigação de cidadania, um compromisso pessoal com a educação? Talvez, mergulhada na crença em deus desde que era ainda uma criança, essa senhora não consiga compactuar com o fato de ter sido ajudada por um ‘infiel’. Talvez, se questionada a respeito, ela poderia sair-se com uma frase pronta, do tipo: “Não faz mal que você não acredite em deus, ele acredita em você!”.

O fato de não crermos em deus não nos coloca à berlinda de nossas obrigações humanistas e sociais. Temos um compromisso estreito com o bem-estar coletivo da sociedade e com a propagação da Humanidade enquanto raça intelectualmente superior. Se o cristão busca desenvolver seu senso de moral e educação com base na bíblia, o ateu deve buscar preceitos diferentes onde basear essa moral e educação. Na maioria das vezes, o que surge é um compromisso com sua própria índole e a cobrança de que, se tudo o mais falhar, a honra ainda será sua para moldá-la às suas necessidades. Daí também surge a humildade. Qualquer caminho aleatório tomado pelo ateu pode advir de uma decisão egoísta ou da má formação de sua educação. O mesmo pode-se dizer dos teístas.

A revelação da humildade chega ao ateu quando este encara, pela primeira vez, a inigualável sensação de livrar-se da culpa da religião, do pecado natural. Não precisamos de religião para aprender a humildade. Quando encaramos nossas limitações, ela surge naturalmente. Ficamos assombrados pela nossa ignorância e pela impotência frente a todo conhecimento, frente às próprias exigências da Natureza. Aprendemos que até o matuto tem algo a nos ensinar.

Decência e compromisso não são moedas de troca. Não existe exclusividade na honra ou na integridade. Essas características são inerentes à toda a Humanidade. No entanto, em nossa Era, essas virtudes são oferecidas pelos templos religiosos não só como obrigações cristãs, mas também como barganha para a felicidade idílica do Paraíso. Para honrar as promessas do deus-pai, o Homem deve seguir determinados preceitos que o ateu adquire sem o compromisso com o divino.

Seria a religião ainda um mal necessário? O que aconteceria se todas as bases morais fundamentadas na religião fossem tiradas da Humanidade? No que os teístas baseariam seus preceitos e normas? Continuariam a seguir sua Ordem Moral, mesmo que deus estivesse ausente? Continuariam a pregar o amor ao próximo se fossem convencidos de que deus nada mais é do que uma caracterização das ideias de moral e índole obrigatórias ao Homem?

Talvez, a exemplo do que pensam alguns ateus mais radicais, as promessas divinas sejam um elo frágil, um vínculo débil a prender o Homem à dignidade social. Liberto da opressão imposta pela regras de deus, o Homem seria capaz de manter íntegra a sua boa-vontade e honestidade, sabendo que está sozinho no Universo, sem uma entidade superior a vigiar seus passos?

Como diz Åsa Heuser, talvez os religiosos mais aprofundados na fé “vivam angustiados, com medo da punição por tantos pecados imaginários. Isso não pode ser classificado como ‘felicidade’". Talvez a religião se comporte como uma corrente que prende o Homem à realidade. Tirando-a da educação do teísta, o compromisso religioso que resulta em dignidade e honra poderá ser cancelado em detrimento da finalização das promessas divinas.


Não podemos agir de forma a, deliberadamente, prejudicar outras pessoas. Essa é a principal regra básica a ser respeitada (salvo a necessidade de defesa). Aceita a concepção de que a vida é apenas um fenômeno passageiro e que nossa consciência é a única culpada por nos alimentar com o desejo da infinitude, devemos respeitá-la acima de qualquer outra coisa. Uma vez que um ser vivo esteja consciente de sua existência, a perspectiva de anular essa existência deve ser totalmente desconsiderada, em vista da natureza irreversível do fenômeno. Em outras palavras, assassinato e pena de morte são processos tão absolutos que deveriam, num exame sério, serem repudiados até pela mais intransigente sociedade. Há algo de sinistramente repugnante em condenar uma pessoa à morte. Sendo a vida algo tão pessoal, não parece justo que seja dado a semelhantes o poder de interromper essa vida. Não são poucos os que estendem esse tipo de respeito também aos animais. E, obviamente, mesmo o mais insidioso dos homens tem respeito pela sua própria vida. O autoflagelo invariavelmente não é prática comum nas sociedades e, quando o é, tende a ser inconsciente.

Na visão da maioria dos ateus, que buscam na ciência as respostas que não encontraram na religião, esse instinto de autopreservação não só é uma herança de nossa ancestralidade animal, como também é o precursor da religião.

Segundo o escritor e ateu André Cancian, webmaster do site www.ateus.net e autor do livro ‘Ateísmo & Liberdade’, “as religiões – livradas de seu componente de controle social – poderiam ser entendidas como interpretações que exprimem de modo cifrado e intuitivo os instintos mais profundos da vida, que surgem em nós como um sentimento difuso e primitivo de autoafirmação – fazendo-nos acreditar que a vida é algo especial e nos levando a avocar suas causas”. Dessa forma, a função da religiosidade parece ser o suprimento de ideias consoladoras em torno das perspectivas realistas de seu contexto existencial. Cancian defende essa ideia ao afirmar em seu livro:

“A religiosidade, entendida como um braço do instinto de autopreservação, funcionaria de modo a sancionar explicações e interpretações antropocêntricas da realidade, em função da satisfação de nossas necessidades vitais. Hoje, podemos dizer que o esquema lógico comumente utilizado é mais ou menos este: se Deus criou a vida, então a vida é divina, e tudo nela tem uma razão de ser, uma elevadíssima razão. Portanto, se a vida é fruto de uma vontade infinitamente sábia, então certamente não há motivos para questioná-la em seus fundamentos – e essa ideia pode ser tomada como uma premissa de valor que respalda com força máxima a crença no valor da vida, sancionando per se todos os impulsos autopreservativos que conduzem ao bem-estar biológico, emocional, psicológico e existencial”.


Mesmo o mais cético entre os céticos dificilmente acredita que um dia as religiões abandonem seu papel de condutores morais da sociedade. Elas provavelmente continuem a existir indefinidamente, mesmo que a um nível íntimo e pessoal. Hoje em dia, é comum encontrar pessoas que têm uma fé inquestionável, mas que não têm vínculo algum com qualquer instituição religiosa. São muitos aqueles que conseguem uma comunhão com deus sem necessitar da intervenção de um pastor, padre ou sacerdote de qualquer tipo. Esse tipo de independência religiosa tem ajudado indiretamente o crescimento do pensamento cético. Livres dos dogmas impostos por livros sagrados e pela interpretação intransigente dos líderes religiosos, as pessoas encontram uma maior liberdade de questionamento e permitem-se trilhar os caminhos misteriosos que lhe eram vetados através de sutis ameaças de punição. Insatisfeitas com as explicações simples e ultrapassadas fornecidas pela bíblia, buscam na ciência respostas mais satisfatórias.

Cada nova resposta fornecida pela ciência abala a estrutura da fé do questionador. As perguntas começam a se tornar mais profundas. Quando nos damos conta de que mesmo a fé, o amor e a felicidade podem ser explicados através dos processos científicos que estudam o cérebro, vemos diminuir a esfera de influência do divino em nossa vida. Mais tarde, descobrimos que existem muitos outros que já enveredaram por esse mesmo caminho, e cujas filosofias já são maduras o suficiente para servir de apoio e fonte de informação na reestruturação de nossas crenças.

A Internet é um dos canais mais estruturados no que diz respeito à reunião de céticos e ateus. Em ambientes virtuais como o Orkut e os fóruns livres, o debate acirrado entre céticos e crentes serve como uma politriz para a filosofia. Representantes de ambos os lados digladiam-se com palavras e citações, afiando seus argumentos e especializando-se em assuntos que até então conheciam apenas superficialmente. Surgem afinidades entre os debatedores da mesma corrente. Unidos por princípios em comum, tornam-se amigos e até companheiros. O ateu deixa de sentir-se só. Muitos compartilham suas mesmas dúvidas e constatações.

Encarando comunidades virtuais sobre ceticismo e ateísmo que chegam a dez mil membros, é possível pensar que os ateus e céticos estão se reunindo, talvez para alguma espécie de golpe filosófico a ser aplicado num futuro próximo. Mas não é nada disso. Números tão altos devem-se tão somente à virtualização da sociedade, que encontrou na Internet um ambiente de convívio que reúne interesses comuns. Dificilmente há militância. Para André Cancian, o ateísmo não deve ser militante porque não há motivos de orgulho em ser ateu. O orgulho deve vir, sim, da racionalidade e julgamento crítico que permitem concluir que o ateísmo é a perspectiva mais lógica diante da ideia da existência de deuses. “Se alguém deseja militar por algo – o que não vejo como necessário – que seja pelo livre-pensamento, para ensinar as pessoas a pensarem por si mesmas, não somente “evangelizá-las ateisticamente” – o ateísmo, em si mesmo, não serve para quase nada”.

Realmente, a aplicabilidade do ateísmo na sociedade não promete qualquer vantagem adicional de estruturação cultural ou econômica. Isso contribui para que seja considerado apenas como uma experiência de nível pessoal. Tendo combatido por tanto tempo o dogmatismo que situava o Homem no centro da criação, o cético passa a ver com desconfiança tudo que possa defender uma ‘verdadeira causa’ para o Homem. Livres de quaisquer definições absolutistas, os ateus moldam suas regras de conduta, curiosamente semelhantes às dos crentes mais afoitos. Respeito ao próximo, obrigações morais, deveres como cidadão, decência pessoal. É como definiu sabiamente Jean-Paul Sartre (1905-1980) ao questionar sobre o existencialismo:


"O existencialista pensa que é extremamente incômodo que Deus não exista, pois, junto com ele, desaparece toda e qualquer possibilidade de encontrar valores num céu inteligível; não pode mais existir nenhum bem a priori; já que não existe uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo (...) Se Deus não existe, não encontramos, já prontos, valores ou ordens que possam legitimar a nossa conduta. Assim não teremos, nem atrás nem à frente, nenhuma justificativa para nossa conduta. Estamos sós, sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo, mas por estar livre no mundo. Estamos condenados a ser livres. O existencialista não pensará nunca que o homem possa conseguir o auxílio de um sinal qualquer que o oriente no mundo, pois é o Homem quem decifra os sinais."


A liberdade é, talvez, nosso direito mais precioso. Percebemos isso muitas vezes quando saímos do trabalho num dia particularmente estafante e encaramos o fim do dia, o pôr-do-sol, a agitação que domina as ruas. A liberdade age desde a esfera mais íntima, até ao contexto social e internacional. Existem regras sobre liberdade que devem ser obedecidas, e existem conceitos morais próprios que são ou não respeitados. Sem deus, devemos procurar outras referências que nos ditem o que é certo ou errado. Ao dizer que o Homem está condenado a ser livre, Sartre não faz um julgamento desprovido de emoção. Somos livres para agir de acordo com qualquer preceito íntimo que venhamos a desenvolver, seja para o bem ou para o mal. Ao recebermos a condenação da liberdade, herdamos a responsabilidade por nossas ações e pensamentos.

Ao encararmos a perspectiva de podermos ser verdadeiramente responsáveis por cada um de nossos atos sem prestar contas a uma entidade superior, cresce a obrigatoriedade da boa índole e do comportamento social louvável. O comportamento do ateu está sujeito às mesmas regras de psicologia, sociologia e biologia que ditam o comportamento de toda a sociedade.
À semelhança dos cupins, formigas e abelhas, somos animais sociais. E essa sociabilidade é resultado de milhões de anos de evolução. Essa seleção natural que nos moldou nos presenteou com um sistema nervoso particularmente sensível ao estado emocional de nossos semelhantes. Isso é o que afirma o editor da American Atheist e membro da Associação Americana para o Avanço da Ciência, Frank R. Zindler, em seu artigo ‘Ética Sem Deuses’, de 1999. “Entre nossa espécie, emoções são contagiosas, e são raros os mutantes psicopatas entre nós que podem ser felizes no meio de uma sociedade triste. Está em nossa natureza sermos felizes no meio de felicidade, tristes no meio de infelicidade. Está em nossa natureza, felizmente, procurar por felicidade para nossos semelhantes, ao mesmo tempo em que a procuramos para nós mesmos. Nossa felicidade é maior quando é compartilhada”.

Os princípios então herdados por um cidadão ateu serão semelhantes aos das pessoas que o cercam. A profundidade das relações sociais humanas difere-nos de qualquer outra espécie conhecida. Somos a única que vive sob leis institucionalizadas, preceitos morais e regras de conduta. Mas há outros tipos de relação, tão essenciais à estrutura social, que são compartilhadas por outras espécies com uma afinidade que nos desconcerta. Numa família de chimpanzés, algumas ações como caçar piolhos, brincar e comer nos são tão familiares que sentimos, no íntimo, nosso parentesco não tão distante com eles. Não há caos na família de macacos. O filho honra seus pais e irmãos incondicionalmente, e os adolescentes respeitam o líder, até que tenham condições de desafiá-lo para conquistar sua posição na estrutura familiar. Os bebês são protegidos pelos pais e irmãos. Eles compartilham a comida, são afetuosos e disciplinados entre si. E, apesar disso, jamais conseguiram desenvolver uma comunicação escrita, nem mesmo inferior às rudimentares pinturas ruprestes.

Essas semelhanças, por vezes desconcertantes, são fruto da mesma evolução, assim, é até comunal que eles tenham certo comportamento ‘humanizado’. No entanto, para estes macacos, essas regras sociais não necessitam de uma figura divina que as guie e as faça cumprir. A sociabilidade do macaco não advém do medo da punição. Não existem oráculos nem mandamentos.

Alguns macacos chegam a ter comportamento altruísta, como é o caso dos grupos babuínos. Ao serem perseguidos por leopardos, os machos mais velhos, pós-reprodutores, ficam na retaguarda do grupo para enfrentar a batalha desigual, dando aos seus semelhantes uma chance de fuga. Através do sacrifício declarado dos mais velhos, os machos mais jovens e as fêmeas têm a chance de continuar suas vidas. O heroísmo é muito mais antigo que as religiões, lembra Zindler.


"Muito antes dos deuses terem sido criados pelas mentes cheias de medo de nossos ancestrais menos corajosos, o heroísmo e os atos de autossacrifício amoroso já xistiam. Eles não precisaram de uma desculpa sobrenatural, nem precisam de uma agora (...) A complexidade labiríntica que nós vemos quando examinamos os códigos morais tradicionais não surge de necessidade: é amplamente resultado de tentativas em vão de acomodar a natureza e as necessidades humanas aos excêntricos totens e tabus de demônios e divindades que emergiram conosco da nossa moradia em cavernas no final da Era Paleolítica - e têm assombrado nossas casas desde então".


Evoluindo da condição de primatas semi-selvagens para grupos sociais, os humanos conquistaram a posição de ‘controladores’ da natureza. Temos o poder de extinguir uma espécie e já o demonstramos vezes sem conta. Hoje, algumas espécies sobrevivem apenas graças a leis de proteção ambiental e à consciência ecológica. Diferentemente de todos os outros animais, moldamos o ambiente às nossas necessidades. E cada nova mudança demanda novas soluções para novos problemas. A todo esse conjunto de necessidades podemos dar o nome de cultura.
A cultura tem uma vantagem em relação à genética. Suas mudanças não levam milhares ou milhões de anos para serem passadas adiante. No espaço de uma geração, toda a cultura referente a uma necessidade peculiar pode ser aprendida, memorizada e ensinada. Nós herdamos características adquiridas! Chegamos a um nível de evolução que nos permite buscar mais conhecimento, pela simples sede de obtê-lo.

O cético, o ateu, uma vez que tenha negado a teoria criacionista, tende inevitavelmente a seguir a teoria evolucionista, não por ser a alternativa mais aceita, mas porque é a mais provável. Obedecendo a características rígidas ditadas pela ciência e independente da intervenção de um deus, a teoria da evolução traz ao ateu o consolo da resposta. Ele sabe que seus preceitos morais e regras de conduta têm raízes profundas nas Eras passadas. Seu comportamento não pode ser totalmente ditado pelo que estabelecem os livros sagrados. E, não sendo a honra uma característica divina, aqueles que vivem sem deus também podem tê-la.

Podemos dizer que os dez mandamentos bíblicos são um bom pilar onde fundamentar as leis sociais, salvo alguns que são questionáveis na visão cética, como amar a deus sobre todas as coisas. Da mesma forma, os sete pecados capitais podem encabeçar um manual de qualidade de vida, com o que deve ser evitado para uma existência mais saudável. Nada de inveja, gula ou preguiça. Mas não podemos ser conduzidos por regras e normas ditadas há dois mil anos. Nossas necessidades evoluíram, a sociedade exige respostas mais específicas do que um simples ‘Não Matarás!’. Milhões de anos de evolução do comportamento não podem ser condensados em sete dias de vontade divina.
Numa época em que ainda afiávamos lanças e moldávamos machados de pedra, a cooperação era essencial à sobrevivência do grupo. Um homem não conseguia, sozinho, cercar e matar um bisão ou um veado. Por isso, nos reuníamos em grupos que permitiam criar uma armadilha para um animal, empurrando-o em direção a um penhasco e jogando-o lá de cima. A carne quase sempre alimentava mais de uma família de um grande grupo, e aquele que fosse desprezado por seus esforços na hora da divisão do alimento poderia abandonar o grupo, buscando outros que reconhecessem seu trabalho. Poderia, até mesmo, rebelar-se e levar consigo alguns de seus familiares. A aceitação da partilha nasceu da necessidade da convivência em grupo. Machos em idade de caçar tinham a obrigatoriedade de compartilhar sua força e agilidade. Conquistando seu quinhão do alimento do dia, ele tinha o direito de dividir o alimento com sua família.

Os mais velhos eram respeitados por toda dedicação que já tinham dispensado ao grupo. Bebês e jovens eram protegidos pelas fêmeas, constantemente prenhes ou amamentando. Apesar de ainda não terem nome e agirem no nível primitivo, características como cooperação, dedicação e reconhecimento foram os pilares da justiça. Daí para a educação foi um pulo (na escala evolucionista). A cooperação que ditava as caçadas logo foi adotada na proteção coletiva do grupo, através de vigílias ordenadas; mulheres e adolescentes saíam em excursões através das florestas e savanas, colhendo raízes e frutos, dando aos seus machos a chance do descanso.

Dentre todos os primatas, somos aquele que demanda mais cuidado dos pais depois do nascimento. Nossa independência leva tempo demais. A superproteção nos transformou em bebês incapazes de buscar a sustentação, exigindo cada vez mais atenção dos familiares. Na pré-história, a competição acontecia apenas em níveis hierárquicos e na disputa pelas fêmeas. Aqueles que conquistavam o direito de governar o grupo ou acasalar com uma fêmea ganhavam o respeito dos demais, mas tinham que honrar com suas obrigações, protegendo a comunidade ou alimentando sua família. Em troca pela dedicação familiar, o pai ganhava o carinho da companheira e dos filhos. Dentro de seu padrão de comportamento ainda sub-desenvolvido, este pai ensinava aos filhos suas habilidades, vendo com orgulho as primeiras incursões de deus herdeiros na vida adulta. Respeitosos, os filhos tornavam-se cópias grotescas do próprio pai, até que sua própria evolução permitisse ultrapassa-lo, dominando, por sua vez, o grupo. Quando adulto, esse macho honrava seus pais e líderes. Esses comportamentos deram origem aos laços de família.

Convivendo harmoniosamente entre seus semelhantes, nossos ancestrais hominídeos aprenderam a associar figuras da natureza ou do próprio grupo ao que lhes era agradável ou não. Uma fêmea particularmente atraente ou um filhote brincalhão tornavam-se prazerosos à convivência no grupo, bem como um macho jovem, viril e bom caçador. Da mesma forma, um líder rigoroso e injusto poderia atrair a ira da coletividade, sofrendo uma amotinação. Aprendemos a compartilhar momentos mágicos, como o pôr-do-sol, ao lado daqueles que nos eram caros, trocando carícias e grunhidos. Aprendemos a gostar do que era belo. Ainda não tínhamos inteligência, mas já amávamos.

Seja qual for a característica ou sentimento que habita no ser humano, ele é fruto de um desenvolvimento que levou Eras para atingir o estágio atual.

Consciente de que seus preceitos morais não advêm de uma divindade criadora, o ateu percebe que o padrão de bondade que segue originou-se nas mais antigas necessidades de convivência e sobrevivência da espécie. Até mesmo a justiça foi lapidada pela evolução. Não há qualquer compromisso de gratidão dirigido a uma força criadora. O fato de amarmos nossa própria vida incondicionalmente a ponto de evitarmos a qualquer custo nossa própria morte nada mais é do que o aperfeiçoamento do instinto de sobrevivência.

E talvez essa seja a resposta à uma das maiores perguntas da Humanidade. “Qual o sentido da vida?”. “Sobrevivência”.

Talvez haja um sentido espiritual que reflita a verdadeira resposta. Mas as alternativas são muitas! Cada religião defende uma Verdade Absoluta. Deus tem tantas facetas que é difícil saber qual a certa. Algumas, tão próximas entre si por suas filosofias, são tão divergentes em certos aspectos que tornam-se recriminatórias umas em relação às outras. E, com o advento do pensamento livre, do ecumenismo pessoal e das personalidades teístas que têm um lado espiritual independente de religiões, multiplicam-se as opções. Um espectador de fora pode até demonstrar tolerância em relação a cada uma delas, mas aqueles que as seguem não pensam assim. Sua Verdade Absoluta é a verdade suprema.

Ainda assim, a alternativa evolucionista também tem defeitos. Existem lacunas fósseis que ainda precisam ser preenchidas para que se tenha certeza da verdadeira origem do Homem. No entanto, as evidências já coletadas demonstram uma pequena suscetibilidade a alterações bruscas no quadro evolutivo já montado por nossos cientistas. É quase certo que tenhamos surgido no Planalto Africano e migrado para as diversas regiões da Terra. A evolução de nosso aprendizado pode ser medida através dos achados arqueológicos, de machados toscos a armadilhas complexas, de pinturas feitas com sangue a totens e deuses.
Herdamos conceitos matemáticos descobertos há quatro mil anos atrás. Aprendemos sobre as injustiças cometidas durante o obscurantismo através de livros de história e documentos preservados em museus e outras instituições. Temos uma relativa segurança de quem foram os vilões e mocinhos da História.

A ciência revela-se uma fonte tão segura àqueles que buscam o aprendizado que pouco deve em respostas, desde que o absolutismo não seja uma exigência. Essa é sua característica principal. À semelhança de nós mesmos, a ciência evolui para se aperfeiçoar. O que dita essa evolução é a constante necessidade de nos adaptarmos a situações adversas. Doenças exigem medicamentos, a mobilidade exige transporte, a comunicação exige satélites e fibras óticas, a curiosidade exige impulso científico. Para o ateu, a ciência torna-se a opção mais viável onde fundamentar suas crenças e filosofias, além da vantagem de trazer conhecimento verdadeiro.

O ateu está em constante mudança. Seu cérebro, livre das imposições religiosas e da ilusiva onipresença divina a vigiá-lo, torna-se suscetível a novas ideias e conceitos e pode abdicar de uma filosofia em favor de outra. Quanto mais à luz da experimentação científica estiver uma ideia, mais facilmente ela será apreendida pelo cérebro ateísta. O assombro resultante de cada novo aprendizado geralmente serve como recompensa pela abdicação dos conceitos absolutos. Livres da impostura criacionista, temos um Universo inteiro para explorar. Talvez esta seja outra resposta ao que poderia ser o tal sentido da vida: a curiosidade.


Abandonados em nossa própria existência, aprisionados pelo Tempo inexorável, condenados a sermos finitos, limitados às nossas poucas capacidades, obedientes às regras sociais. Sendo responsáveis não só por nós mesmos enquanto indivíduos, mas também diante da coletividade enquanto cidadãos, temos a missão de dar à vida todo o valor que lhe é merecido.

O sentido da vida será, então, o que fizermos dela. Uma boa alternativa é valorizá-la através do aprendizado constante. A busca por respostas há muito impulsiona a Humanidade. Sobrevivência e curiosidade nos forçam a ultrapassar os limites atuais. Se, ao comer a maçã proibida, Adão nos condenou ao conhecimento, seu crime fez valer seu propósito. Hoje fazemos até tortas com a maçã!

A especialização nos permite penetrar fundo em aspectos misteriosos da ciência. Qualquer desenvolvimento hoje requer especializações em determinados campos que nos permitem aprofundarmo-nos em conceitos e ideias já formadas e contribuir com algo revolucionário, que impulsione essa ciência adiante. Felizmente, não há um campo atrativo único, de forma que cada setor está devidamente suprido de profissionais bem-sucedidos, o que garante seu constante avanço frente aos novos desafios. A paixão pela ciência é tão diversificada quanto a paixão divina ou mística. A diferença é que, na ciência, os resultados são comprovados através de experimentação.

Nossa estrutura de comunicação e interatividade nos permite acompanhar passo-a-passo o desenvolvimento da ciência. Comumente, ela é feita às claras e as poucas pesquisas que acontecem em laboratórios secretos, cercadas por uma parafernália de equipamentos de segurança, acabam chegando, mais tarde, até a sociedade.

Os campos de desenvolvimento são tantos que cabe à própria ciência propagandear seus feitos, para que possa destacar-se em meio à massa de informações que chega das diversas camadas da sociedade. Em 1988, o filósofo Gui Debord afirmou, em seu artigo ‘Comentários à Sociedade do Espetáculo’:


"Já não se pede à ciência que compreenda o mundo ou o melhore nalguma coisa. Pede-se apenas que justifique instantaneamente tudo o que faz. Tão estúpida neste terreno como em todos os outros, que explora com a mais ruinosa irreflexão, a dominação espetacular promoveu o abate da árvore gigantesca do conhecimento científico com o único fim de dela talhar uma matraca. Para obedecer a essa última exigência social de uma justificação manifestamente impossível, mais vale não saber pensar incomodamente e, pelo contrário, estar-se bem exercitado nas comodidades do discurso espetacular. E é com efeito nesta carreira que a ciência prostituída destes tempos miseráveis encontrou agilmente, com muito boa vontade, a sua mais recente especialização".


Mas o julgamento de Debord pode ser leviano, até exagerado. A ciência deve obedecer às mesmas regras de toda a sociedade. Assim como espera-se que a educação, a religião, a política, a economia e as artes cheguem até a população através dos meios de comunicação, assim deve-se comportar a ciência. Com as dificuldades encontradas em conseguir patrocínio para diversas áreas, os centros de pesquisa têm de propagandear as conquistas e objetivos que lhes cabem. Cientistas são obrigados a aprender técnicas de marketing para valorizar suas descobertas. De outra forma, que outro caminho a ciência encontraria para ganhar o respeito e a admiração das pessoas?

Ademais, a ciência é um caminho seguro para que possamos nos tornar parte da História. À exceção de alguns personagens bíblicos, a maioria dos homens e mulheres conhecidos dos livros contribuíram para o avanço de alguma ciência, ganhando assim um lugar no hall de personalidades históricas que serão lembradas para sempre. De fato, mesmo hoje existem nomes que passarão para os livros de História depois que já tiverem partido.

Poucos são aqueles que, ao iniciar sua carreira, esperam alcançar status na comunidade científica. A princípio, há algo de altruísta nos sentimentos do jovem que escolhe o caminho da ciência. Sua dedicação e os avanços que puder proporcionar em seu campo dirão se ele está destinado a pertencer à lista dos grandes. Parafraseando um comercial de uísque que é veiculado na TV brasileira, “para alcançar a imortalidade você só precisa fazer uma coisa notável”.

A conquista do reconhecimento por uma grande contribuição pode não ser o objetivo de todo cientista, mas é inevitável que haja regozijo quando acontece. Afinal, este tipo de conquista é apenas mais sofisticado do que aquele onde os caçadores empurravam suas presas do penhasco. Sua cooperação para o avanço da ciência é quase que automaticamente reconhecida pela comunidade científica e, às vezes, até pelos livros de História.

Doravante, se o papel que desempenhamos encaixa-se na História apenas como mais um parafuso numa linha de montagem de automóveis, ainda assim devemos buscar conquistas, transferido-as para outras esferas. Nem todos alcançam seus sonhos na mesma intensidade. A frustração é característica de muitos daqueles que se dedicam à ciência.

A simples vontade de viver faz com que as mais ínfimas conquistas sejam celebradas, estejam elas no nível profissional, amoroso ou pessoal. Quando alcançamos um objetivo, tendemos a proclamar a vitória, conscientes do desejo de apoio e reconhecimento. Se essas conquistas restringem-se ao âmbito pessoal da questão ou se destinam ao benefício da Humanidade, a diferença entre o regozijo da conquista é apenas uma questão de grau.

Assim, o conquistador da reputação científica deve ser respeitado e invejado. Se uma conquista é apregoada na televisão e revistas especializadas, ela tem, por trás de si, anos de pesquisa e desenvolvimento. Se houver espetacularização da descoberta, tanto melhor para a ciência, visto o quadro relegado de descaso que encontra nos meios de comunicação de massa. Se um cientista alcança a celebridade – e muitos o fazem hoje – é porque sua contribuição à ciência foi devidamente reconhecida.

Da mesma forma, o reconhecimento acontece em outros segmentos da sociedade. O músico pode ficar famoso pelas suas composições melosas ou estrofes de protesto; o poeta pelo seu sentimentalismo cativante; o político por sua sinceridade e pelas lutas defensivas à sociedade; o pastor pela sua humildade e capacidade de liderança; o educador pelo seu compromisso com a formação de novos cidadãos. A ciência não é o único caminho que conduz o Homem a uma existência melhor. Enquanto alguns encontram o sentido da vida na explosão de um átomo ou na descoberta de um fóssil pré-histórico, outros o encontram na pintura, nos livros, no trabalho beneficente, na vida familiar.

As necessidades básicas que regem a vida cotidiana do Homem são as mesmas. Não podemos escapar às nossas necessidades fisiológicas, bem como às necessidades instintivas. E nossas recompensas, quando traduzidas na mesma linguagem binária, mostrarão que o reconhecimento, o companheirismo, o compromisso e a curiosidade foram os condutores primordiais de nossas conquistas. Ainda agimos de acordo com as mesmas necessidades do grupo de caçadores primatas que nos originou.

Se o compromisso com o divino e a esperança da vida eterna forem abandonados, o que restar será suficiente para preencher todas as nossas expectativas e anseios, pois todas têm raízes biológicas. Se o sentido da vida continuar relegado ao âmbito espiritual, continuaremos avançando a passos lentos em direção ao futuro. Abandonando a prepotência de que viveremos para sempre, nos voltamos para necessidades mais imediatas. Sem a ‘Utopia do Paraíso’ a nos guiar, temos uma visão mais clara do horizonte do futuro.

Por que, afinal, esta necessidade em abandonar a crença religiosa? Não é verdadeiramente uma necessidade. Podemos ver isto em nosso cotidiano. Nos Estados Unidos encontram-se metade dos vencedores de Prêmios Nobel; é lá que se originam um terço de toda produção científica mundial. Ainda assim, é o maior país protestante do planeta. A religião não é, necessariamente, um empecilho para o desenvolvimento científico, mas impõe sérios limites ao prazo com que podemos criar esse desenvolvimento.

A ética religiosa corre paralelamente à ética científica. Na verdade, a ética religiosa afronta uma série de vertentes que escapam à ciência, como o comportamento social, a condição sexual, os direitos humanos. A religião condena as pesquisas com células-tronco, o transplante de sangue e de órgãos, a união civil de pessoas do mesmo sexo, o uso da camisinha como preventivo, a inseminação artificial. Há de se lembrar que a ciência viveu no limbo durante quatro ou cinco séculos do obscurantismo imposto pela ICAR e pela Reforma, antes que pudesse renascer com Kepler, Galileu e Copérnico. Talvez, se a religião não tivesse agido com punho tão firme durante os dois últimos milênios, hoje poderíamos ostentar conquistas científicas maiores, como uma vida mais longa, cidades mais estruturadas e pessoas mais equilibradas. Sem dúvida, a religião teria imposto sua vontade durante todo o processo de evolução da sociedade, mas será que as Cruzadas, a Inquisição e a Reforma foram realmente necessárias à sobrevivência da espécie Humana? A ceifação de vidas imposta durante todo esse tempo serviu-nos para ampliar nosso conhecimento? Ou foi apenas uma intervenção incômoda que atrasou o cronograma evolutivo social?

Se Galileu tivesse sido ovacionado e incentivado a continuar suas pesquisas, talvez tivéssemos chegado à Lua com décadas de antecedência. Se a ICAR tivesse admitido a veracidade das teorias galileana e darwiniana, introduzindo-a em seus dogmas, talvez a ecologia, a astronomia e a biologia poderiam estar décadas à frente de onde estão hoje. Se milhões de bruxas e médicos medievais não tivessem pagado com a própria vida por suas descobertas medicinais, talvez hoje tivéssemos a cura do câncer e outras doenças incuráveis. Se as cidades tivessem surgido ao redor de universidades, ao invés de igrejas, templos e mesquitas, talvez cada uma de nossas crianças teria um futuro garantido e o compromisso da sociedade com sua educação. Analisando friamente o papel da religião na História Humana, percebemos que suas conquistas foram poucas e os empecilhos muitos.

A desvinculação da fé da religião é uma das conquistas alcançadas pela liberdade criativa. Sendo uma experiência de nível tão pessoal, a fé pode se fortalecer com a simples admiração da natureza, com o sentimento desperto de amor ou mesmo com uma descoberta científica. Para a maioria, a fé age como alavanca para a conquista de sonhos e serve como alimento para a esperança. Muitos cientistas atuam ao nível da física quântica e da exploração do átomo e, ainda assim, conseguem manter sua crença em deus.

O problema está exatamente na fronteira que separa pacificamente ciência e religião. Na sociedade, muitas das ações e leis ainda são regidas por princípios religiosos e isso, por si só, não é motivo para preocupação. Mas o ideal é que ciência e religião sejam tratadas como entidades separadas, pois algumas teorias científicas ainda contradizem alguns mitos e ‘verdades’ religiosas. Muitos já o fazem. A urgência da ciência em explicar determinados fatos que eram relegados ao âmbito religioso é comedida. Foram necessários séculos para reconhecermos que nossas doenças eram causadas por micro-organismos e não por demônios. O mesmo pode-se dizer de nossas origens. Poucos são aqueles que erguem-se para contestar as descobertas da ciência. Seu número diminui a cada nova descoberta e comprovação científica e isso acontece sem a necessidade de um enfrentamento violento. Se um dogma religioso cai por terra por culpa da ciência, tanto melhor. Temos uma superstição a menos a nos guiar.

Não existem registros válidos de que já tenhamos comido o maná que cai do céu, diretamente dos fornos celestes, mas acompanhamos o avanço no ramo das pesquisas agropecuárias nos últimos séculos e garantimos nossa sobrevivência. Distantes do Éden, precisamos nos preocupar com a sustentação da espécie. O poeta Mário Quintana disse, certa vez, que “Para os peixinhos do aquário, quem troca a água é deus”. Nós não temos quem nos troque a água. Na condição de seres superiores, toda a responsabilidade pelos recursos do planeta é nossa, e isso inclui não só nossa própria vida, mas a de todos os nossos semelhantes. Se os peixinhos do aquário de Quintana pudessem raciocinar, veriam que quem troca a água não é deus, mas apenas um ser superior na cadeia evolutiva.

Se, um dia, um grupo de seres superiores se revelasse a nós, afirmando que são responsáveis por nossa vida e história, talvez os chamássemos de deuses. Certamente haveria muitos dentre nós que se prostrariam em adoração a uma entidade assim. Mas alguns contestariam e exigiriam as provas de tal alegação, defendendo que estes seres seriam apenas mais desenvolvidos que nós. Outros, até, se rebelariam, apregoando que podemos viver sem a intervenção desses deuses, apelando à liberdade de serem simples seres humanos evoluídos. Esses seriam os mais céticos.

Se a paixão do Homem pela Verdade é realmente incondicional, aqueles que seguem um determinado dogma religioso destronado adaptar-se-ão à nova condição. Esse reconhecimento é necessário para o amadurecimento da mente. Acreditamos em Papai Noel até o momento em que descobrimos que o bom velhinho nada mais é do que um profissional contratado por lojas e shoppings para manter acesa a chama do natal. O mito cai por terra antes mesmo que alcancemos a puberdade e nos adaptamos à vida sem ele. Negar a verdade imposta e comprovada pela ciência em detrimento de uma verdade totalmente baseada em fé é o mesmo que continuar acreditando, na vida adulta, que todos os brinquedos distribuídos no natal são fabricados no pólo norte pelos duendes escravizados do bom velhinho. A mente adulta está apta a questionar e superar.

Talvez uma forma de conduzir o desafio de harmonizar intimamente ciência e religião seja considerar a religião como uma ciência. E por que não? A religião nasceu da necessidade do Homem em explicar um Universo misterioso. Ela explica o surgimento da vida, a consciência humana, a criação do Universo, a explicação para o Sentido da Vida. No entanto, a religião é uma ciência falha, que não se baseia em evidências concretas, mas que tenta, ainda assim, fornecer respostas a perguntas que não são do âmbito da fé.

Uma boa opção para aquele que quer seguir a ciência sem abrir mão da sua fé pessoal, ao mesmo tempo em que quer manter um senso digno de verdade, é abrir mão de cada conceito religioso que já tenha sido sobrepujado pela ciência, mantendo a fé nos processos onde a ciência ainda não penetrou. Podemos responder com segurança sobre nossas origens mais distantes estudando nosso DNA e conseguimos explicar com relativa convicção a evolução do Cosmos. Nesse aspecto, conseguimos desbancar a maioria dos mitos criacionistas religiosos. Mas não podemos responder, ainda, se há verdadeiramente uma vida após a morte ou o reencontro com os entes amados no paraíso celeste. Ainda há espaço para exercermos a fé sem comprometermos nossa aliança com a ciência.

A maioria dos benefícios ainda incólumes da religião está no campo da remissão e da consolação, onde a ciência dificilmente pode penetrar. Ao pai que perde o filho recém-nascido ou a esposa amada, resta a esperança do reencontro, da justiça, da saudade aliviada. A fé pode, obviamente, suprir desejos que a ciência ainda está longe de alcançar, e talvez jamais alcance. A religião pode até servir como paliativo à desesperança e à melancolia, desde que não queira eclipsar o avanço da ciência na busca por respostas reais aos mistérios da vida. E a ciência também pode atuar na esfera da consolação, pois são poucos os fenômenos onde ainda não atue com alguma deferência. Como lembrou o professor de teologia e ética de Yale e autor do clássico ‘Cristo e a Cultura’, Helmut Richard Niebuhr, “A revelação não é algo milagrosamente esotérico; ela acontece em diversas esferas da experiência humana. A fé não é uma volta irracional ao absurdo; ela é confiança e lealdade, aspectos da experiência humana comum. A vida moral pode ser representada pelas atividades humanas de ‘fabricantes’, ‘cidadãos’ e ‘respondedores’, não apenas pelas atividades de filósofos morais. Os agentes humanos comuns não precisam de credenciais profissionais para amar e cuidar, e essa é a forma de vida que importa”.

Seguindo as palavras de Niebuhr, podemos até acreditar que poderá haver, no futuro, um ecumenismo que eclipse as divergências fundamentalistas e que até tenha espaço para a ciência expor sua opinião. Uma religião fortalecida pela ciência poderia ganhar adeptos de todas as vertentes, e até alguns cientistas. Segundo Joan B. Campbell, pastor e membro do Conselho Nacional das Igrejas de Cristo dos Estados Unidos, em seu artigo ‘Ciência e Religião’, de 1997, superadas as diferenças fundamentalistas, ainda restam muitas características comuns a ambas as vertentes que poderiam agir em prol da união entre ciência e religião. Ambas compartilham um respeito e uma reverência comum à criação; as descobertas da ciência afetam diretamente os religiosos; e ambas recorrem à busca do conhecimento como forma de alcançar o poder sobre algo ou alguém. Se a moral e a ética são as pedras fundamentais da religião, a união não tardará a acontecer e muitos dos símbolos científicos poderão ser integrados ao panteão de ídolos religiosos, não como entidades a serem idolatradas, mas como preceitos e mandamentos a serem respeitados e seguidos.


“Pense na imagem do planeta Terra como um ponto azul claro ou, na sua forma mais familiar, aquela maravilhosa esfera cheia de azuis, cinzas e roxos. Imagine sua fantástica semelhança com uma imagem de ultra-som do útero de uma mãe bem no começo da gestação. Essa imagem, um ícone secular, como pode ser chamada na linguagem religiosa, tem ajudado a formar em nossas mentes e corações a realidade de um mundo sem paredes; um mundo onde as barreiras são quebradas e a vida libera e desagrilhoa os conceitos de raça, classe, preferência sexual, gênero e até mesmo de Estado-Nação”.


São muitos os símbolos científicos que poderiam ser adotados pela religião no ensino de novas doutrinas. O estudo aprofundado das cadeias de DNA pode nos conduzir pelos caminhos pré-históricos, até alcançarmos uma ancestralidade comum, que una todas as raças numa única origem. A imagem da cadeia de DNA poderia ficar em lugar de destaque num palco ou púlpito. Se houvesse uma igreja da ciência, seu teto abobadado seria pintado com o momento da criação, tal qual seu homônimo da Capela Sistina, pintado por Michelangelo; mas não seriam as figuras de deus e Adão sutilmente unidos pelo toque de seus indicadores e, sim, a Grande Explosão, o Big Bang, criando os primeiros átomos e trazendo luz para o Universo. Seria uma obra histórica.

Imagine o poder contido nos símbolos científicos. O respeito imposto por tais símbolos poderia ultrapassar as mais fortes crenças religiosas. O Universo proposto pela ciência, que começa com o Big Bang, remete-nos a uma criação muito mais antiga do que a sugerida pela bíblia ou qualquer outro registro religioso e sugere um Universo muito mais vasto, - na verdade, infinitamente vasto – a ser compreendido e explorado. A exploração das cadeias de DNA, a busca pela ancestralidade comum a todas as espécies, a compreensão do vasto Tempo decorrido para que a evolução pudesse se processar também são fatores a serem obedecidos e respeitados. Recuando no Tempo por Eras suficientes para que encontremos uma característica comum a todos os seres vivos, encontraremos um tronco-chave que permitiu a Terra diversificar sua vida a ponto de criar milhões e milhões de ramos diferentes e independentes.

A Força que moldou esse tronco-chave a centenas de milhões de anos atrás, que nos permitiu evoluir até o que somos hoje, merece ser respeitada, seja ela consciente ou não. Tal Força age dentro de nós na esfera mais íntima. Pertencemos a ela porque somos fruto dela. Não podemos escapar às suas normas e imposições. Se alguns preferem chamar tal Força de deus, que assim seja. Obedecidos os preceitos de que tal divindade pouco promete em consolação e recompensa, seu poder, sua ancestralidade e sua complexidade serão suficientes para transformá-la numa poderosa força condutora do comportamento social.

O mesmo se dá com a teoria do Big Bang. É preciso imaginação pródiga para conceber uma pequena parcela dos bilhões de anos necessários à formação das estrelas de terceira geração, do tempo decorrido até que as forças moldadoras do Universo pudessem gerar uma inteligência que pudesse compreender e contemplar esse Universo. A vastidão e a antiguidade do Universo nos transformam em verdadeiras pérolas de consciência no frio e inóspito ambiente que nos cerca. Uma Força foi responsável por nos conceder essa curta existência que nos permite compreender tal vastidão, mas é mais provável que tal Força sequer tenha consciência de nós e que haja apenas impulsionada pelas rígidas normas da Natureza, sem qualquer poder de decisão. Ainda assim, seu caráter universal merece nossa reverência. No panteão de deuses indiferentes do Universo, a Gravidade, o Eletromagnetismo, a Energia Nuclear e o Tempo seriam fortes candidatos à adoração. Talvez os cientistas céticos pudessem até mesmo integrar alguns ícones da religião tradicionalista. São Tomé, que costumava duvidar de tudo, seria um bom candidato a padroeiro dos céticos. Mas, confessemos, teria algum trabalho em ganhar o reconhecimento pelas suas interseções.

Poderíamos até mesmo criar alguns rituais para efeito de ‘Pão e Circo’, onde representaríamos o despertar da consciência ou a ignição solar. Mas o momento mais esperado certamente viria com a homilia, onde o sacerdote contaria a história de algum ilustre defensor das ciências, como Giordano Bruno ou Eratóstenes, e depois nos levaria para passear pelas descobertas e avanços alcançados desde seus predecessores. Alguns cientistas teriam a paixão e a oratória necessárias para conduzir essas celebrações. Poderíamos, nessas mesmas linhas, criar uma parábola do pai-nosso, mas certamente seríamos acusados de heresia pela maioria das igrejas cristãs. Talvez ainda não seja o momento da união. Talvez essa união seja mesmo um sonho idílico.

Enxergando a ciência como uma forma de religião, talvez seja um equívoco pensar em seus ícones como objetos de reverência e respeito. O respeito deve existir, é certo, mas deve atuar num nível íntimo e pessoal. O consolo e a recompensa virão da mesma forma que vêm para os cientistas sem-religião ou para os cientistas teístas, pelo reconhecimento do trabalho.

Os céticos mais radicais podem dizer que um cético não crê em nada, que os verbos ‘crer’ e ‘acreditar’ não são aplicáveis à sua filosofia. Mas mesmo esse comportamento pode ser considerado fundamentalista. É claro que os céticos creem. Eles creem que a teoria da evolução é verdadeira porque as evidências apresentadas o fazem seguir essa linha de raciocínio, creem que a cura do câncer não tarda a chegar porque as pesquisas neste campo já estão bastante avançadas, acreditam que estarão vivos num futuro próximo, porque fazem planos a curto prazo. Negar a crença é negar uma necessidade que evoluiu paralelamente a qualquer outra que tenhamos herdado de nossos ancestrais.

Assim, tanto religião quanto ciência são formas paralelas que buscam respostas para as mesmas perguntas. Se, em nosso julgamento, nos atermos verdadeiramente às provas materiais, como experimentação e sustentação, pesquisa e desenvolvimento, histórico de benefícios e elementos comprobatórios, então teremos um solo firme onde apoiar nossas crenças e necessidades. Quanto ao vazio ideológico que seguirá após o abandono da religião, certamente será um episódio passageiro. Outras prioridades surgirão, e os desejos deixarão de ser mesquinhos e levianos. Abdicando da crença de que viveremos para sempre, podemos abandonar esse desalento inicial em favor de uma ideologia muito mais honrosa, íntegra e eficiente: a sobrevivência da espécie.

O Tempo segue em via única, e assim é como tudo que há no Universo. A Entropia, talvez a mais inexorável das leis da natureza, age em nós, seres inteligentes, com uma dolorosa indiferença. Como a galáxia, o sol, os planetas e as rochas encontram seu fim ao final de séculos, milênios e eras, assim acontece conosco, mas numa velocidade espantosamente rápida. Mas, enquanto houver a curiosidade e a fome de conhecimento, enquanto a Humanidade não entregar seus pontos no infinito jogo cósmico da existência, haverá pessoas a zelarem pela continuidade de nossos sonhos. Se nossa ânsia atual por superação prosseguir adiante através das gerações vindouras, podemos alimentar uma relativa segurança quanto ao futuro e a sobrevivência da espécie. Não estaremos lá para presenciar as maravilhas que serão alcançadas pela ciência, mas podemos, agora, nos orgulhar de sermos a base das futuras conquistas científicas.

Estamos, agora mesmo, desenhando o futuro.


Vides Júnior