A família trance: uma introdução (versão resumida)


Marija Ludovic é uma mulher de quarenta e poucos anos. Há cinco anos atrás ela conheceu Lukas Kappel, fato que transformou a vida de ambos. Ela nasceu na Croácia e cresceu na Alemanha. Ele, nasceu e cresceu na Alemanha. No entanto, o ponto de encontro do casal foi a ilha de Ibiza, no litoral da Espanha.

Marija trabalhou durante 10 verões europeus iluminando as pistas de dança das casas noturnas mais badaladas daquele paraíso hedonista. Como é corriqueiro entre os trabalhadores do mercado de diversão de Ibiza, durante o inverno, no ano de 2005, ela viajou à Ásia.  Retornando de sua estadia em Koh Pheng, na Tailândia, ela descobriu ter levado consigo o protozoário transmissor da malária. O resultado foram dois meses impossibilitada de trabalhar, o que acarretou dificuldades em arcar com os compromissos financeiros do aluguel da casa e de manutenção do automóvel. Foi quando apareceu Lukas em sua vida.

Ele se dedica, há mais de 14 anos, aos estudos do “Human Design System” (HDS - www.humandesignsystem.com.br ) , passando mais de dez anos de sua vida nas vilas de Goa, antiga possessão portuguesa na Índia, e reconhecida por atrair um enorme contingente de hippies durante os anos 70s e 80s. (Saldanha, 2004). Em Goa foi desenvolvido um novo estilo musical, o Goa trance, que mescla a musicalidade hindu com os modernos sintetizadores de som. Os festivais na praia sob a lua cheia e a música psicodélica ganharam o mundo face à grande mobilidade que caracteriza os seus adeptos. (Saldanha, 2004: 275)

De acordo com Anthony D’Andrea (2007), ocorre um movimento pendular de “expatriados expressivos” entre Ibiza e Goa. No verão europeu, eles estão em Ibiza; e quando chega o inverno, muitos se deslocam para Goa, momento de alta temporada do turismo de prazer e espiritualidade por ali. Eles podem ser comerciantes hippies, artesãos, músicos, promotores de festa, professores de yoga, cozinheiros vegetarianos, curandeiros de diferentes sistemas de conhecimento mágico, traficantes de drogas... Em sua maioria oriundos das classes médias ou altas de “países desenvolvidos” ou “em desenvolvimento”, freqüentemente bem conectados com elites artísticas e econômicas internacionais. (D'Andrea, 2007: 43) Entre este grupo, o pesquisador identificou que as experiências de mobilidade são de suma importância e usualmente relacionadas com interesses cosmopolitas (no sentido de possuírem um sentimento de pertença ao planeta terra como um todo e não a uma nação ou território específico). Neste contexto, “[...]nacionalidades são referências que vão desaparecendo em função de um crescente mosaico de cidadanias misturadas e hifenizadas” (op cit: 43)

As experiências de vida, de mobilidade, e os eventos de arte trance é que conectam essas pessoas. Marija estava em dificuldades, quando conheceu Lukas, que àquela altura oferecia leituras de HDS durante a alta temporada de Ibiza. O circuito de eventos e amizades fez com que os dois se encontrassem. Ele se disponibilizou em ajudá-la e convidou-a para uma temporada em Goa. Ela, que já não possuía os mesmos vínculos em Ibiza, graças à doença, aceitou o convite.

De um curto período na Índia, o casal partiu para uma expedição de festas itinerantes pelo continente europeu. Ela carregava seu material de decoração e iluminação, enquanto ele estava responsável pela aparelhagem de som. Na saída do país, seus passaportes foram invalidados pela autoridade aduaneira indiana. “People don't like us because they don't understand our lifestyle. ” , me disse Marija em nosso último encontro em junho deste ano.

Lukas tinha planos de investir os recursos financeiros herdados da família consanguínea e construir sua própria casa em Goa.  Mas a Índia não se encantou com ele e, apesar do visto de cinco anos que ainda possuía, viu seu passaporte ser invalidado. À mesma época, ele fora convidado para palestrar sobre o HDS em Brasília. Chegando no país que ainda não conhecia, causou-lhe admiração a hospitalidade dos habitantes locais.  Foi levado para conhecer Alto Paraíso, cidade onde as festas trance nasceram para o Brasil em meados dos anos 90. O casal não podia e agora tampouco queria voltar à Índia. Não sabiam, mas Marija estava grávida, e a criança nasceu em Goiás, fato que permite aos pais estadia legal em território brasileiro. Alto Paraíso não tem a agitação noturna das vilas de Ibiza ou de Goa, mas possui a prerrogativa de ser um ambiente extremamente acolhedor para viajantes em busca de “contato com a natureza” e com novas experiências espirituais.

Lukas e Marija foram acolhidos pela comunidade trance de Alto (como carinhosamente se referem os moradores da cidade). Assim como foram acolhidos, hoje eles recebem viajantes que estão no roteiro de festividades. Alguns decidem ficar, como é o caso dos jovens companheiros Caspar Jansen e Victor Klugman, que estão construindo sua casa em terreno cedido por Lukas e Marija.  A cidade de Alto Paraíso vem se afirmando como importante nó de uma rede transnacional cujos vértices são as localidades de Goa e Ibiza, que abrigam membros dessa quasi-parentela há mais de 20 anos. Eu sugiro que a reprodução social do coletivo se dá através dessa rede de acolhimento mútuo à qual eles chamam de família. O ideal de família pretendido pelo coletivo trance é uma espécie de retorno à sociedade ancestral. Os “tranceiros” distribuídos globalmente se fazem uma família. Lealdades circulam além de qualquer fronteira, projetos de mundo são compartilhados, e a comunidade é re-inventada a cada lua cheia.

 

ATUALIZAÇÃO: Para ler o artigo completo leia o PDF http://www.hippies.com.br/download/a_familia_trance.pdf

 

Referências bibliográficas

APPADURAI, Arjun. (1998). Disjunção e Diferença na economia cultural global. In F Featherstone, Mike. Cultura Global: nacionalismo, globalização e modernidade. Petrópolis: Editora Vozes.

BASCH, Linda; SCHILLER, Nina ; SZANTON Blanc, Cristina. (1994). Nations Unbound: transnational projects, postcolonial predicaments and deterritorialized nation-states. Basel: Gordon and     Breach Publishers

D'ANDREA, Anthony. (2007). Global Nomads: Techno and New Age as transnational countercultures in Ibiza and Goa. London & New York: Routledge.

LEVITT, Peggy. (2001). The transnational villagers. Los Angeles: University of California Press.

MORGAN, Lewis H. (1877) 2003. Ancient Society. Tucson: The University of Arizona Press

RIBEIRO, Gustavo Lins. (2000). Cultura e Política no mundo contemporâneo. Brasília: Editora UnB

SALDANHA, Arjun. (2004). Goa trance and trance in Goa: smooth striations. In St John, Graham. Rave Culture and Religion. London & New York: Routledge.

ST JOHN, Graham. (2004) Rave Culture and Religion. London & New York: Routledge.