MID - Maldita Inclusão Digital

Não conheço um internauta 1.0 que não abomine a tal "inclusão digital". As águas da internet que outrora eram boas de navegar, reservando surpresas e um mundo novo de possibilidades, acabaram tornando-se mais poluídas do que as da Baía de Guanabara.

Lá pelos idos de 1996, quando eu comecei a acessar a grande rede, a internet era algo extremamente elitizado. Também não era pra menos, o acesso era caro pois pagava-se o serviço do provedor, que consistia num pacote magérrimo de horas franqueadas e ainda pagava-se mais as horas extras utilizadas.

Para se ter uma idéia de como era caro, o pulso telefônico mal importava nessa conta naquela época.

Tudo bem que era caro, lento, barulhento(quem não se lembra do modem fazendo escândalo e acordando a casa toda) e haviam mais gringos do que brasileiros, ou seja, o inglês era bem mais fundamental naquele tempo do que o miguxês ou o analfabetês é hoje.

Mas tinha seu lado bom. Podia-se conhecer pessoas interessantes, o nível das conversas era bem melhor e a ausência da banda larga impedia os "tem cam" ou "manda foto" da vida de estragarem as conversas. Existiam as pragas virtuais, é claro, mas comparado ao que existe hoje aquilo era quase "germ free".

Conheci muita gente legal nessa época, aprendi muita coisa, foi um período bom.

Mas veio o pulso único, chegou a banda larga, o preço desta abaixou e as Casas Bahia aliadas às Lan Houses ajudaram a trazer para a rede a favelização que o Brasil já vê na sua vida real diariamente.

De repente fomos invadidos por hordas de pré-adolescentes miguxos, com seu vocabulário de Hello Kitty das trevas, seus jogos, trollagens, idiotices. Junto a eles vieram as hostes da assim chamada "baixa renda" que, em sua maioria, acham que isso também deve significar "baixa civilidade".

Aliás, sejamos justos, não acham isto, é que ninguém jamais os ensinou.

Possuímos escolas públicas de péssima qualidade, uma TV aberta(que é a que a maioria da população sem "gatonet" assiste) com programação idiotizante e os ritmos preferidos e enfiados goela abaixo do "povão" são nada menos que funk, axé e pagode, um trio que equivale aos cavaleiros do apocalipse do bom gosto.

Grande parte da nossa população vive uma rotina de violência latente. Seja pelo que assiste nos locais aonde mora, aonde o único serviço público que chega é a polícia; seja no âmbito familiar onde as noções mais básicas de educação faltam porque não existe quem as transmita.

Ônibus lotados, trens que só serviriam para transportar gado num país decente, infra-estrutura precária, gravidez precoce, falta de dinheiro, ausência total de eventos culturais (baile funk não conta, funk é lixo, não é cultura), uma erotização cada vez mais invadindo a infância e o que se tem como resultado é isso: um povo extremamente grosseiro, mal educado, sem noções de convivência social fora àquelas que convencionou adotar como as "regras do gueto".

É a tal "olha a disciplina, leke".

Mas o Brasil adora fazer tudo de trás pra frente.

Não tem nem infra-estrutura básica decente, quer fazer Olimpíada. Não tem um povo com acesso mínimo a educação formal, mas este já tem acesso à internet.

Daí vemos esse show de horrores, como aqui, aqui e aqui.

O maior medo dos usuários do Twitter era a sua "orkutização". Mas existem fenômenos contra os quais não adianta lutar. Reportagens de jornais, TVs e até "manuais do Twitter" já trouxeram o fenênomeno para o site.

As correntes, o miguês e o analfabetês presentes e a disseminação de joguinhos tipo "Quem você quer morder" ou trending topics dos "Jonas Brothers", não me deixam mentir: a turma da espinha no rosto e excesso de hormônio e a galera da Lan chegaram com força total.

O que fazer? Nada.

Aturar, ignorar, tentar fazer um descarrego nos que ainda tem salvação, e rezar para que um dia algum governo resolva ajudar na educação do seu povo, e que além de bens de consumo como geladeiras, televisores, computadores e acesso à internet, forneça também as ferramentas para que estas pessoas possam utilizar-se do que tem à mão de forma mais edificante da que acontece atualmente.

É esse o "grande segredo": educação, aquela coisinha que se aprende em parte na escola e é tão desprezada por quase todo mundo. Ela é a chave para a solução de muitos problemas, inclusive este tráfego desqualificado que hoje representa o brasileiro na internet.

Quanto aos adolescentes, bem, adolescência é uma ocorrência neuro-incapacitante que todo mundo sofre a partir dos 12 anos mais ou menos e só passa, às vezes, após os 20 e poucos ...isso só uma jaula e tempo mesmo para melhorar.

 

Fonte: contracorrenteza.blogspot.com