Corpo em transe

Etnografia sobre o Cachoeira Alta Dance Festival

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

Faculdade de Comunicação e Artes

Antropologia e Comunicação

 

 

 

Corpo em transe

Etnografia sobre o Cachoeira Alta Dance Festival

 

 

 

Rafael do Prado Monteiro


Introdução

 

De 07 a 10 de junho de 2007 foi realizado a IV edição do Cachoeira Alta Dance Festival, que acontece anualmente nas montanhas de Ipoema-MG. A celebração de Trance Psicodélico reuniu em torno de 2 mil pessoas de várias partes do Brasil e do mundo que se alojaram em uma vasta área de camping. Tendo como centro a pista de dança, o número de festivais têm crescido juntamente com o cenário da música eletrônica no Brasil.

Este trabalho pretende analisar o desenvolvimento da socialidade nos festivais de arte e cultura, assim como a relação dessa expressão com os rituais pré-históricos, partindo da minha segunda experiência no festival Cachoeira Alta.

 

 

Cultura rave

 

Rave é um tipo de festa que acontece predominantemente longe dos centros urbanos, em sítios ou galpões, com música eletrônica. É um evento de longa duração, normalmente acima de 12 horas até 7 dias, no caso dos festivais, onde DJ’s e artistas plásticos, visuais e performáticos apresentam seus trabalhos, interagindo dessa forma com o público.

O termo "rave" começou a ser usado para descrever uma cultura que cresceu do movimento "acid house" de Chicago e evoluiu no Reino Unido. Oriundo do inglês, está relacionado à idéia de exaltação, euforia, de um estado diferente do cotidiano, além de denominar as festas e os eventos nos quais há alguma proposta de elevação espiritual. A consolidação de uma cultura rave tem como referencial um conjunto de manifestações vinculadas à musica eletrônica, também conhecida como e-music. Essa cultura faz parte de um movimento marcado pelo conceito underground (formas alternativas de informações, música não-comercial) ligado à cibercultura. Associadas, essas culturas produzem novas formas de difusão artística e de socialidade.

 

 

A cultura psicodélica tal qual como conhecemos hoje tem suas origens no movimento hippie dos anos 60, tendo o amor e a paz como principal lema de vida. Partindo de uma luta contra a ideologia dominante através de batalhas simbólicas, o movimento fez apologia de um modo de vida no qual se exaltavam os valores comunitários. No final dos anos 80, um grupo de pessoas se juntava em torno desses conceitos e ideais, impulsionando o surgimento de uma nova sonoridade que se adequasse melhor à psicodelia já vivenciada, pautada principalmente pelo uso de psicoativos. Nos festivais são definidas regras informais de comportamento relacionado ao uso dessas substâncias, que nesse contexto agrupa uma série delas, desde as mais naturais encontradas na natureza até as mais utilizadas, que são o LSD (ácido lisérgico) e o Ecstasy (MDMA), sintetizados em laboratório.

 

 

As ondas sonoras e o corpo

 

À tradicional música eletrônica foram incorporados elementos da sonoridade oriental, além de informações rítmicas tribais e étnicas, o que resulta em uma música mais orgânica, que estimula não só estados próximos ao transe místicos, mas também uma maior harmonia com os ambientes naturais e ao ar livre.

O Trance psicodélico pode ser melódico e reflexivo e utilizar efeitos sonoros/rítmicos que sugerem melodias ocultas. As vertentes do “Psy” são o Progressivo, Full On, Minimal, Tribal ou Morning Trance. Cada estilo é adequado a um determinado horário ou situação da pista de dança. Atualmente, o Psy Trance está entre os estilos de música eletrônica que mais crescem em popularidade no Brasil.

Esse tipo de música conta com o “sub grave”. Estes sons estariam fora da capacidade humana de captá-los se não fossem executados num volume muito elevado. Neste volume, o corpo humano não reconhece o som pela audição, mas pelo tato, fazendo com que o som seja mais sentido do que ouvido. Sendo assim, entre os signos, o principal veículo de comunicação destes festivais é o corpo. É nele que os signos incidem e onde a eficácia do rito está baseada. A busca pelo êxtase passa necessariamente pelo corpo, seja alterando seu metabolismo através do uso de substâncias psicoativas, seja por movimentos repetitivos, através do “jogo de sentidos” que se estabelece nesses eventos.

 

 

Revivendo a cultura ancestral

 

Apesar de a música eletrônica estar umbilicalmente ligada à tecnologia informática e demandar aparelhos de áudio e vídeo de última geração, as experiências multisensoriais vividas nas festas não deixam de atuar como um sinal de unidade entre o passado e o futuro. A rave se liga aos rituais tribais do passado, dando continuidade às manifestações iniciadas pelo homem pré-histórico.

Para o arqueólogo Steven Mithen, professor da Pré-História da Universidade de Reading, na Inglaterra, os hominídeos que viviam entre 50 mil e 100 mil anos atrás já utilizavam a música como forma de comunicação e socialização. O mantra utilizado por eles proporcionava uma noção comunitária de “transe coletivo”, semelhante ao visto nas atuais raves. Para ele, “a música criava um senso coletivo, de estarem juntos na mesma situação, enfrentando os mesmos problemas (...) oferecendo uma identidade social, e não apenas individual”.

Para que haja socialidade, é preciso um ponto de encontro. É a música que faz essa conexão entre tecnologia, comportamento, arte, informação e ciberespaço. É possível observar nas raves uma transição do foco convencional (palco) para a pista. É na pista que o ritual acontece. O centro da festa é a platéia e a sua dança freestyle, imprevisível, livre. A interatividade entre os humanos proporciona uma forma comum de experiência dentro de uma festa rave.

Por ter tido um grande desenvolvimento na Índia, essa cultura herdou algumas crenças do hinduísmo, budismo e xamanismo, o que explica a atual presença de figuras míticas como Ganesh e Shiva nos ícones decorativos. Apesar disso, não se faz adoração a nenhum deus ou espírito específicos nas festas, mas ao místico e ao oculto. Neste contexto, a ligação à natureza é muito importante e os locais escolhidos para as festas se situam afastados dos centros urbanos. Geralmente são sítios, fazendas, praias, campos ou montanhas. O contato com a natureza tem a proposta de conectar as pessoas e deixá-las em transe através da dança, assim como nos rituais, por exemplo, das tribos xamânicas ou indígenas.

 

Estrutura

 

A estrutura do festival seguiu o padrão básico que, além da pista de dança, conta com um chill-out, espaço onde as pessoas podem se deitar ou sentar para descansar e ouvir uma música com batidas mais lentas e relaxantes chamada “ambient”; uma feira com stands de acessórios artesanais e roupas e praça de alimentação. Houve também uma série de palestras educativas sobre os mais diversos temas, filmes e documentários sobre a existência humana e muitas atividades culturais que permearam o festival. O tempo todo, era visível a satisfação do público em estar ali. Cerca de 2.000 pessoas interagiram na mais perfeita paz durante os quatro dias.

A organização se preocupou também com a decoração, que envolveu muitas cores, símbolos, formas geométricas e luzes fluorescentes. No centro da pista de dança, um enorme meteoro do qual saíam “braços” robóticos, com luzes, acessórios e globos de plasma íon (círculos de onde saem raios, que se concentram em um ponto ao toque da mão), que causaram um excelente impacto à noite e divertiram os participantes que interagiam com a decoração. Além disso, aconteceram também as projeções de imagens, estabelecendo conexões com outras linguagens artísticas, predominantemente no campo da produção imagética. É o caso dos VJ’s (video jokeys) que seriam os “DJ’s do vídeo”. Esses se encarregam da geração de imagens fractais, clips em 3D, edição de vídeos e animações, o que proporciona a criação de um ambiente ainda mais etéreo dentro da festa, colocando as pessoas em contato com vários símbolos e mensagens implícitas através das imagens e formas. Dessa forma, é interessante observar como todos esses elementos podem ser pensados como direcionadores das experiências com substâncias psicoativas e, assim, procurar entender o significado atribuído pelo grupo ao uso dessas substâncias.

As atrações passam também pelo âmbito circense, incluindo malabaristas performáticos e engolidores de fogo. O uso de malabares seria um exemplo de como se autocontrolar num ambiente que o corpo sofre estímulos concomitantes. Além de comunicar os estados desejados e indesejados do grupo, o corpo serve ainda de principal instrumento de apresentação do “eu” para o “outro”, apontando uma preocupação com a expressividade individual.

 

 

Público

 

Na tentativa de manter o caráter de quebra das regras dominantes da sociedade atual, as raves ainda mantém os valores da cultura hippie, se apresentando como uma oportunidade de escape do cotidiano rotineiro. Os crusties, ou nômades, são neo-hippies que percorrem as festas pelo mundo com suas performances malabaristas e equilibristas, além de venderem artesanato para seu sustento.

Apesar disso, o festival não é restrito a um grupo isolado. Foi possível notar que o evento reuniu pessoas de diversas tribos e vivências compartilhando o “código” P.L.U.R. (peace, love, unity, respect) difundido e praticado pela cultura rave.

 

 

Conclusão

 

Através dessa experiência, foi possível constatar que por trás dos festivais de trance psicodélico existe um movimento global da cultura psicodélica, que busca a ampliação da consciência das pessoas para atitudes e sentimentos de amor, união, paz e respeito. O festival Cachoeira Alta, ao possibilitar aos participantes um espaço destinado à troca de informações e conhecimentos, reforçou sua função como transmissor desta cultura, podendo ser pensado como um ritual social organizado pelos integrantes da cultura psicodélica, a qual apresenta toda uma cultura que está diretamente associada ao uso de psicoativos.

O objetivo final do trabalho não é julgar se o fenômeno analisado constitui ou não um universo de contra-cultura dos jovens da atualidade. A proposta é indicar um interessante mecanismo da dinâmica cultural das sociedades contemporâneas observado através do trabalho etnográfico: a “evolução” dos rituais que há milênios estão pautando a vida do homem e, agora, se fazem presentes na alta modernidade.

Sem dúvida alguma, o que chamou-me mais a atenção foi a convivência pacífica dos participantes durante tanto tempo, quebrando qualquer associação das drogas à violência. A polícia militar fez um trabalho muito sério e respeitoso no local, mantendo a segurança e evitando eventuais problemas, apesar de não ter sido registrada nenhuma ocorrência de agressões no local.

Considerando que os festivais de música eletrônica proporcionam experiências de êxtase, na qual o universo é mais experimentado como energia do que matéria, tais manifestações são pouco aceitas pela cultura ocidental materialista, a qual procurou de todas as formas destruir os aspectos experimentais do mundo “arcaico”, tendo como forte aliada a igreja católica – que perseguiu as religiões pagãs, que concebem toda forma de vida como sagrada.

 

 

Bibliografia auxiliar

 

  • Folha Online – Coluna ciência, por Thiago Ney - 11/06/2006

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u14723.shtml

 

  • Fórum Plurall

http://www.plurall.org

 

  • Revista Psyzine 2004:nr.1

 

  • Erowid

http://www.erowid.org