Valores e culturas diferentes

Quando há mortes em série nos EUA, a reação no Brasil é quase sempre a mesma. No calor do fato, é comum ouvir: a sociedade norte-americana é doente e cheia de malucos atirando uns nos outros. 

Como se sabe, não é bem assim. Tragédias com matadores descontrolados acontecem em todas as partes. No Brasil, a memória sobre Realengo ainda está fresca. 

 

A análise subsequente é também clássica nessas horas. Resmunga-se contra o destaque para três mortos em Boston enquanto nas periferias brasileiras há muito mais assassinatos e ninguém dá bola. Seria melhor me eximir de comentar tal observação. Não resisto. Repito o óbvio. Uma das razões para um fato virar notícia é a sua excepcionalidade. 

Mas o aspecto que mais me interessa nessas situações é quando, em geral, policiais nos EUA são aplaudidos depois de caçarem suspeitos. É só as imagens aparecerem "foi o caso das bombas em Boston" e muitos brasileiros reagem tapando o nariz. Acham um despropósito saudar agentes de segurança "tão brutais" (sic). Afinal, um dos suspeitos foi morto em circunstâncias incertas. O outro ficou gravemente ferido ao ser capturado. 

A reação brasileira é reveladora da nossa relação com a lei e a ordem. Há aqui um desprezo difuso a tudo que cheira a oficialismo. Identifico três razões na origem desse valor bem tupiniquim (também presente na América Latina afora). 

Primeiro, a ditadura militar (1964-1985) nos ensinou a desconfiar e a repelir policiais. Segundo, a tradição ibero-católica nos compele a amar o Estado quando temos algo a lucrar de maneira direta e a odiá-lo se nos obriga a cumprir nosso dever. Por fim, a qualidade geral da polícia no Brasil deixa a desejar. 

Nesse contexto, entendo tantos brasileiros sentirem náusea ao verem norte-americanos aplaudindo seus policiais. Mas acho que esse é mais um traço do nosso atraso.

 

fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/fernandorodrigues/1267644-valores-e-culturas-diferentes.shtml