Por que acreditamos em Deus?


Tempos atrás, apenas teólogos ou filósofos tentariam responder esta pergunta, mas nas últimas duas décadas cientistas de diversas áreas do conhecimento têm aportado informações valiosas que nos ajudam a compreender o fenômeno da fé. Para eles -e com razão- a fé religiosa é também um comportamento, e como tal tem uma base biológica.

As teorias dos cientistas dividem-se em duas vertentes, a educacional e a evolutiva. A explicação educacional é fácil de entender. Adultos -pelo menos muitos deles- acreditam em deuses porque lhes foi ensinado quando crianças.

Ao contrário de outros mamíferos, os primatas nascemos muito mal preparados para a vida. Ao nascer não sabemos fazer quase nada. Passamos um longo período da nossa infância aprendendo dos adultos mais próximos. Crianças aceitam sem duvidar as explicações de um adulto, fundamentalmente quando este tem uma posição de autoridade dentro do grupo. Seus cérebros estão preparados para assimilar tudo da forma mais rápida possível. Aprender rápido é uma questão de sobrevivência. Se um adulto próximo lhes ensina a não comer determinada fruta, aprenderão que essa fruta é nociva. Se um adulto lhes ensina que devem temer a um deus, o temerão.



Paralelamente a religião utiliza outro mecanismo comportamental muito conhecido pela ciência: o sistema de punição e recompensa. Na infância já assimilamos o conceito que determinados comportamentos podem ser recompensados com a felicidade eterna do paraíso ou castigados com o sofrimento eterno do inferno. Embora para uma criança de seis ou sete anos seja difícil compreender o conceito de eternidade, a ideia de sofrimento por um longo período já é assimilável. Imagens do inferno com seus inúmeros exemplos de castigo físico são rapidamente fixadas em nosso cérebro.

Essa associação de recompensa e punição é extremamente poderosa e fixa conceitos e temores religiosos em nosso inconsciente. Não é à toa que as diversas religiões fazem questão de doutrinar (termo mais apropriado que evangelizar) desde a infância. É assim nas madraças islâmicas, nas escolas católicas, judias, etc. Nesse contexto, é compreensível o esforço do Vaticano em impor (e o fez com sucesso) um acordo com o Brasil onde o oferecimento obrigatório de ensino religioso (católico) no ensino fundamental e médio fosse contemplado. A frase bíblica “vinde a mim as criancinhas” ganha assim outra conotação.

Se bem essa teoria educacional pode explicar em parte por que os adultos acreditam em deuses hoje em dia, parece não explicar a contento a origem da fé. Em algum momento da nossa pré-história começamos a reverenciar deuses, antes que isto nos fosse ensinado por nossos pais. Qual a pressão evolutiva que fez com que populações humanas isoladas e sem contato passassem a ter esse comportamento? De alguma forma, criar e compartilhar um deus deve ter sido vantajoso para o indivíduo e para o grupo. Caso contrário o comportamento teria sido abandonado.

Nosso cérebro é bom para criar associações entre fatos mas não é bom para avaliar rapidamente se essas associações estão corretas ou não. Conectamos o fato A com o fato B, em um processo chamado aprendizagem associativa. Às vezes A está realmente conectado com B, mas às vezes os fatos que associamos não têm nenhuma relação. Assim, podemos cometer dois tipos de erro. O falso positivo é quando associamos A com B, mas A não está relacionado com B. O falso negativo é quando não associamos A com B, mas eles sim estão relacionados.

Imaginemos um homem pré-histórico perambulando pelas savanas africanas milhares de anos atrás. De repente ouve um barulho na vegetação ao seu redor. Será o vento ou um perigoso predador à espreita? Se for o vento mas ele associa o barulho ao predador imaginário (falso positivo), fugirá correndo. Cometerá um erro mas este não ameaçará sua vida. Mas se não fizer a associação e for de fato um predador (falso negativo), terá grandes chances de servir de refeição e assim seus genes não serão passados para as futuras gerações. Assim, a própria seleção natural poderia fazer que pessoas propensas ao erro do tipo falso positivo fossem selecionadas em detrimento das outras. Com o tempo, para as seguintes gerações o comportamento de associar coisas naturais a causas imaginárias e potencialmente ameaçadoras (sobrenaturais ou não) pode ter se tornado comum.

Alguns cientistas acreditam que essa pode ser a base na crença em espíritos, fantasmas, anjos, demônios, ETs, conspirações governamentais e, claro, deuses. Ainda de acordo com essa teoria, o seguinte passo foi fixar esse vantajoso comportamento individual ao grupo. A religião pode ter sido a primeira instituição social a organizar essas crenças, de forma a serem seguidas por todos, e Deus o conceito unificador que desse sentido aos poderes ocultos e misteriosos.

A partir daí, a mentalidade hierárquica que compartilhamos com tantos animais teria organizado toda a casta religiosa, com seus exóticos feiticeiros e seus sumos pontífices.

 

 

fonte: http://ciencia.folhadaregiao.com.br/2011/07/o-homo-religiosus-uma-teoria-evolutiva.html