Os hackers mandam no Linux

Já imaginou um software que, após duas décadas seguindo um mesmo sistema para seus números de versão, simplesmente muda esse sistema?

Já imaginou um software que faça isso e seja patrocinado em grande parte por megacorporações (e inúmeras outras corporações não tão grandes assim) que dependem fundamentalmente dele?

Não é novidade a presença do kernel Linux nos produtos de vários fabricantes do ramo da tecnologia, desde smartphones, impressoras e equipamentos embarcados de uso industrial até servidores e mainframes. Quantos destes fabricantes você imagina que tenham scripts para controlar seus próprios números de versão de acordo com o tradicional esquema 2.6.z.w? Eu imagino que a resposta seja todos; certamente, cada uma dessas empresas possui alguns clones do repositório git central do kernel em seus departamentos de desenvolvimento.

imagem No entanto, nosso pinguim foi da versão 2.6.39 para a 3.0. Não 3.0.0, mas apenas 3.0, arremessando para longe o padrão x.y.z.w, em que x só mudaria em caso de arrebatamento e y só seria ímpar em versões de desenvolvimento.

Um fabricante de sistemas operacionais de cunho unicamente comercial, em sã consciência, jamais alteraria de forma tão significativa o número de versão de seu produto principal sem motivo para tal. Portanto, só podemos concluir que o Linux — ou, ao menos, seu BDFL Linus Torvalds — não cede a pressões comerciais. Ao considerar que "2.6.40 é um número muito alto", o finlandês resolveu, de forma bastante autoritária, mudar tudo a seu bel-prazer:

"Qual a graça de estar no comando se você não pode escolher [os detalhes polêmicos] sem todo um referendo a respeito?"

 

Nas mãos dos hackers

A conclusão, para mim, aponta em uma direção muito interessante: os hackers mandam no Linux. Não adianta tornar esse kernel livre um sucesso de vendas em múltiplas áreas da tecnologia da informação, nem usá-lo como única base para empresas com vendas de US$ 1 bilhão; os hackers ainda têm o poder e o direito de alterá-lo conforme julgarem mais adequado.

Todo software livre tem essa vantagem: como pode sofrer forks à vontade, todos têm a liberdade de permanecer com o projeto "original" ou de criar o seu próprio, caso lhes pareça melhor.

Colaboração egoísta

O grau de dependência de todas essas empresas em relação à árvore central do kernel Linux é justamente o que as obriga a tolerar esse grau de mudança nos planos. Da mesma forma que o Linux é um produto conjunto de seus desenvolvedores e das empresas que os bancam, nenhuma dessas empresas teria recursos para, sozinha, encarregar-se de todo o processo de desenvolvimento. Quando uma empresa escreve um driver para Linux ou aloca desenvolvedores para trabalharem em determinado recurso em benefício apenas da própria empresa, ela automaticamente garante que qualquer outra companhia terá acesso a esses mesmos recursos de software, ao mesmo tempo em que reduz seus custos de manutenção de um kernel completo. É algo como "desenvolva um driver, ganhe um kernel". Altruísmo com base egoísta, no melhor estilo O gene egoísta.

Na realidade, neste momento o Google está pondo à prova a afirmação de dependência do kernel "oficial", pois sua árvore de desenvolvimento do kernel do Android aparentemente consiste em um fork do Linux original. Contudo, qualquer que seja o desenrolar desse processo — ou de qualquer outro fork — certamente o kernel "oficial" permanecerá território dos hackers dedicados e brilhantes que o tornaram um exemplo de sucesso de vendas, de uso, de desenvolvimento e de colaboração.

Até a próxima!

PS: O título deste post foi projetado minuciosamente para atrair especialmente aqueles que conferem sentido negativo ao termo "hacker". Se você leu o post inteiro e não entendeu o que há de bom em ficar nas mãos dos hackers, entao (I) parabéns pela persistência! E (II) confira os múltiplos significados do termo.

 

fonte: http://www.ibm.com/developerworks